META ABUSIVA

Meta abusiva pode virar risco trabalhista com nova NR-1

Especialista alerta que cobrar resultado sem oferecer estrutura adequada pode entrar na avaliação do ambiente de trabalho

Débora Meira
Publicado em 12/07/2026 às 10:17
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A cobrança por metas faz parte da rotina de praticamente todas as empresas, mas a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reacendeu o debate sobre até que ponto essa pressão é considerada normal e quando pode se transformar em risco psicossocial no ambiente de trabalho. A norma passou a incluir fatores ligados à saúde mental dos trabalhadores na análise de riscos ocupacionais. 

Em entrevista ao programa Pingo do J, da Rádio JM, o especialista em Medicina e Segurança do Trabalho, Robert Boaventura, explicou que a NR-1 não cria a obrigação de contratar psicólogos, mas amplia a forma como as empresas devem avaliar o ambiente laboral. Agora, além dos riscos físicos, químicos e biológicos, também entram no radar fatores como estresse, pressão por metas, relações interpessoais, clima organizacional e atuação das lideranças. 

Segundo Boaventura, o ponto central não é a existência de metas, mas as condições oferecidas para que elas sejam cumpridas. Para ele, cobrar resultado faz parte da gestão, desde que o trabalhador tenha estrutura, ferramentas e organização adequadas para alcançar o objetivo proposto. 

“Uma coisa é você ter a sua meta de produção. A outra é você não ter essa ferramenta para ela produzir”, afirma. 

O especialista exemplifica que a cobrança pode se tornar abusiva quando a empresa estabelece uma meta incompatível com a estrutura disponível. “Se eu vou exigir que a pessoa produza dez latinhas, mas a máquina só produz cinco, isso pode ser considerado uma meta abusiva”, pontua. 

A atualização da NR-1 busca justamente mapear esse tipo de situação dentro das empresas. A avaliação dos riscos psicossociais pode ser feita por equipes técnicas, com uso de questionários, entrevistas com funcionários e observação do ambiente de trabalho. As informações ajudam a identificar problemas relacionados à organização interna, pressão excessiva, falta de suporte, comunicação agressiva, liderança inadequada e níveis elevados de estresse. 

Boaventura destaca que o objetivo não é punir empresas ou trabalhadores, mas compreender o ambiente de trabalho e corrigir fatores que possam comprometer a saúde mental, a produtividade e a permanência dos profissionais. Segundo ele, empresas que não conseguem equilibrar cobrança e estrutura tendem a enfrentar aumento de absenteísmo, rotatividade e conflitos internos. 

Outro desafio é a subjetividade na avaliação do ambiente. A percepção sobre cobrança, pressão e bem-estar pode variar entre os trabalhadores. Por isso, a análise deve considerar o conjunto dos colaboradores e não apenas relatos isolados. 

“Quando a gente vai fazer a análise, a gente vai ver o ambiente de trabalho. Se está tendo muita pressão, falta de organização, ou se o líder está fazendo muita cobrança por resultado”, explica. 

A norma também coloca em evidência a forma como as lideranças conduzem as cobranças. Situações de pressão constante, ausência de suporte, comunicação agressiva ou exigências desproporcionais podem ser interpretadas como fatores de risco psicossocial e, dependendo do contexto, até se aproximar de práticas de assédio moral. 

Com o avanço do eSocial e o cruzamento de dados entre órgãos de fiscalização, o cumprimento das normas de saúde e segurança do trabalho passou a ser acompanhado de forma mais automatizada. A NR-1 se aplica a qualquer empresa com pelo menos um funcionário registrado, incluindo pequenos negócios e empregadores domésticos. 

Segundo Boaventura, empresas que já mantêm organização interna, gestão de pessoas estruturada e ambiente saudável devem sentir menos impacto com a mudança. Já aquelas que cobram resultados sem oferecer condições adequadas precisarão rever processos, metas e formas de liderança. 

“Quem já tem um ambiente saudável vai apenas formalizar isso. Quem não tem, vai precisar se adequar”, conclui. 

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