A morte do menino Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, após uma picada de escorpião em Conchal (SP), motivou a criação de uma plataforma gratuita que reúne os hospitais brasileiros com disponibilidade de soro antiveneno. Batizado de SoroJá, o projeto foi desenvolvido em poucos dias por um profissional da área de tecnologia, que utilizou dados do Ministério da Saúde para facilitar o acesso da população às unidades de referência em casos de emergência.
A iniciativa surgiu após o caso de Bernardo ganhar repercussão nacional. A criança morreu em abril deste ano depois de receber o soro antiescorpiônico mais de quatro horas após o acidente. Segundo o pai, houve demora na identificação da gravidade do quadro e o hospital para onde ele foi levado inicialmente não dispunha do antiveneno. O episódio passou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).
Sensibilizado com a história, o criador da plataforma, Eduardo Cruz, que também é pai de duas crianças, decidiu desenvolver uma ferramenta que permitisse localizar rapidamente os hospitais que oferecem soros antivenenos. "Eu recebi a mensagem no grupo da família sobre o acidente com o menino Bernardo. Tenho dois filhos pequenos e me sensibilizei com a notícia", relata.
Embora não seja programador, ele afirma que utilizou ferramentas de inteligência artificial para construir o site em apenas dois ou três dias. "Como trabalho com inteligência artificial, resolvi tentar montar o site. Os dados vieram do Ministério da Saúde. O processo foi rápido", explica.
O site reúne informações sobre unidades que disponibilizam soros para acidentes com escorpiões, serpentes, aranhas e outros animais peçonhentos. A página também destaca que possui apenas caráter informativo e reforça que, em emergências, a população deve acionar imediatamente o Samu (192) ou o Corpo de Bombeiros (193).
Além dos dados oficiais, a plataforma conta com um sistema colaborativo. Usuários podem informar quando identificarem informações desatualizadas ou divergentes. "Qualquer pessoa consegue entrar em contato e reportar um erro. Como eu não posso alterar os dados oficiais, encontrei uma forma de destacar os relatos da comunidade logo abaixo das informações do hospital", informa.
Segundo Eduardo, um sistema automatizado monitora continuamente o portal do Ministério da Saúde. "Eu tenho um bot que analisa o site do Ministério da Saúde e me avisa quando há uma publicação nova. Quando isso acontece, atualizo o site”, esclarece.
Apesar de não utilizar ferramentas para medir o número de acessos, o idealizador afirma que o projeto rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.
Eduardo Cruz afirma que mantém o código-fonte aberto para que outros colaboradores possam contribuir com melhorias. O principal objetivo, porém, é que a ferramenta deixe de depender do trabalho voluntário. "Eu gostaria de doar o site para o Ministério da Saúde, para o Instituto Butantan, para o Ciatox ou qualquer outro órgão que se comprometesse a manter as informações atualizadas. Infelizmente, até agora, não tive retorno positivo de nenhum órgão oficial”, afirma.
O projeto pode ser acessado gratuitamente e busca reduzir o tempo gasto na procura por unidades de referência, fator considerado decisivo em acidentes com animais peçonhentos, especialmente entre crianças, que apresentam maior risco de evolução para quadros graves.
A plataforma SoroJá pode ser acessada gratuitamente pelo endereço www.soroja.com.br, onde é possível consultar os hospitais que disponibilizam soros antivenenos em todo o país. O site também permite que usuários informem eventuais divergências nas informações sobre as unidades de atendimento.