SECA

Seca faz Uberaba liderar número de pessoas afetadas por desastres em Minas Gerais, aponta TCE-MG

Levantamento do Tribunal de Contas mostra que município teve quase 340 mil pessoas diretamente impactadas entre 2015 e 2025; estiagem responde pela maior parte dos registros

Joanna Prata 
Publicado em 26/07/2026 às 17:01
Compartilhar

Uberaba é o município mineiro com o maior número de pessoas diretamente afetadas por desastres naturais na última década. O dado faz parte de levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), com base em informações do Atlas Digital de Desastres no Brasil, que aponta 339,99 mil pessoas atingidas no município entre 2015 e 2025. A maior parte desse total está relacionada aos efeitos da estiagem e da seca, que marcaram os últimos anos e provocaram sucessivos decretos de emergência. 

Segundo a publicação do TCE-MG, Uberaba aparece à frente de Januária, com 284 mil pessoas afetadas, e Minas Novas, com 183 mil. O estudo integra auditoria operacional sobre a gestão estadual de riscos de desastres e mostra que Minas Gerais reúne 283 municípios em situação de vulnerabilidade, o equivalente a 33,17% das 853 cidades do Estado. 

Os dados do Atlas Digital detalham que Uberaba registrou oito desastres reconhecidos no período analisado. Foram três climatológicos, quatro hidrológicos e um classificado em outras categorias. Entre as ocorrências estão dois episódios de chuvas intensas, duas enxurradas, dois eventos de estiagem e seca, um incêndio florestal e uma ocorrência de onda de calor associada à baixa umidade do ar. 

(Fonte/Atlas digital de Desastres no Brasil)

(Fonte/Atlas digital de Desastres no Brasil)

 Embora enchentes e enxurradas tenham provocado desabrigados e danos imediatos, é a seca que explica praticamente todo o volume de pessoas afetadas em Uberaba. Dos 339,99 mil atingidos contabilizados pelo Atlas, 337.839 estão relacionados aos episódios de estiagem e seca registrados no município. 

O levantamento também contabiliza 276 pessoas desalojadas ou desabrigadas e 1.873 feridos e enfermos ao longo da década. Os maiores registros de desabrigados ocorreram em abril de 2015, quando 176 pessoas tiveram de deixar suas casas após enxurradas, e em outubro de 2024, quando outras 100 pessoas foram desabrigadas em consequência das chuvas intensas. 

Além dos impactos sociais, os prejuízos econômicos também chamam atenção. Conforme o Atlas Digital de Desastres, Uberaba contabilizou R$ 199 milhões em danos materiais em 2024 e outros R$ 6,11 milhões em 2022. O setor privado mais afetado foi a agricultura, com perdas estimadas em R$ 91,9 milhões, reflexo direto da escassez hídrica que atingiu a produção rural. 

Na esfera pública, os prejuízos somaram R$ 208,8 mil em 2022 e R$ 98,8 mil em 2024. A maior despesa registrada foi com serviços de limpeza urbana e remoção de resíduos, que responderam por R$ 208,8 mil em custos ao poder público. 

O histórico recente ajuda a explicar os números apresentados pelo TCE-MG. Em 2015, um forte veranico logo no início do ano provocou perdas estimadas entre 30% e 50% nas lavouras da região, levando a Prefeitura a decretar situação de emergência. Meses depois, a redução da vazão do Rio Uberaba exigiu a utilização emergencial das águas do Rio Claro para garantir o abastecimento da cidade. 

A crise hídrica voltou a preocupar em 2021. A combinação entre estiagem prolongada e aumento do consumo reduziu significativamente a vazão do Rio Uberaba, obrigando a Companhia Operacional de Desenvolvimento, Saneamento e Ações Urbanas (Codau) a antecipar a transposição do Rio Claro e adotar manobras operacionais nos centros de reservação para manter o fornecimento de água. 

Em 2024, Uberaba enfrentou cerca de cinco meses sem chuvas significativas, entre maio e setembro. O nível crítico do Rio Uberaba levou o município a decretar situação de emergência no abastecimento de água, estabelecer multas para desperdício e obter o reconhecimento federal da situação de emergência. No mesmo período, as altas temperaturas, agravadas pelos efeitos do El Niño, também motivaram decreto de emergência por 180 dias para prevenção e combate aos incêndios florestais. 

A escassez de água voltou a se repetir em 2025. A queda da vazão do principal manancial do município levou a Prefeitura a decretar novamente emergência hídrica, com restrições ao consumo e aplicação de multas para desperdício de água tratada. 

O relatório do TCE-MG utiliza o caso de Minas Gerais para defender uma mudança na forma como o poder público enfrenta os desastres naturais. Segundo a auditoria, o Estado ainda atua predominantemente de maneira reativa, concentrando esforços após a ocorrência das tragédias, em vez de investir de forma permanente em prevenção, planejamento urbano e adaptação às mudanças climáticas. 

Entre 2015 e 2025, Minas Gerais registrou 4.906 protocolos de desastres, média de 1,34 ocorrência por dia. Nesse período, foram contabilizadas 278 mortes, 377,6 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas, 23 mil feridos e enfermos e 9,19 milhões de pessoas diretamente afetadas. Conforme a publicação do Tribunal de Contas, a ausência de sistemas integrados de monitoramento e de maior articulação entre os órgãos públicos dificulta a gestão dos riscos e reduz a eficiência das ações preventivas, cenário que ganha ainda mais relevância diante dos números registrados em Uberaba. 

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por