Norma reforça atenção a riscos psicossociais no trabalho, incluindo cobranças constantes e excesso de demandas
A cobrança dentro das instituições de ensino muitas vezes ocorre de forma indireta (Foto/Ilustrativa)
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a atenção aos riscos psicossociais no trabalho, trouxe para o centro das discussões a realidade vivida por professores e demais profissionais da educação.
Nos últimos anos, o cotidiano escolar passou por mudanças significativas. Além do conteúdo pedagógico, educadores passaram a enfrentar situações ligadas à inclusão, comportamento de alunos, mediação de conflitos e acompanhamento de estudantes com diferentes necessidades de aprendizagem.
Segundo o especialista em gestão educacional, inovação e ensino superior Angelo Yasui, esse cenário exige preparo técnico e grande capacidade de adaptação.
“A sala de aula mudou. O professor deixou de atuar apenas na transmissão do conhecimento e passou a administrar conflitos emocionais, demandas comportamentais, adaptação pedagógica e situações relacionadas às neuro divergências. Casos de TEA, TDAH, TOD e transtornos ansiosos tornaram-se mais frequentes, exigindo preparo técnico, equilíbrio emocional e mediação constante”, afirmou.
De acordo com Yasui, a cobrança dentro das instituições de ensino muitas vezes ocorre de forma indireta, associada ao acompanhamento permanente de resultados acadêmicos e metas internas.
“A pressão na educação raramente é explícita, mas aparece por meio de indicadores institucionais: acolhimento estudantil, permanência, evasão, desempenho, empregabilidade e avaliações externas. O problema surge quando esses indicadores deixam de orientar melhorias e passam a gerar cobrança contínua. Quando o resultado se transforma permanentemente em meta, a pressão deixa de ser instrumento de gestão e passa a produzir desgaste emocional”, disse.
A NR-1 amplia a responsabilidade das organizações na identificação de fatores que possam contribuir para o adoecimento psicológico dos trabalhadores, incluindo excesso de tarefas, cobranças constantes e falta de suporte adequado.
Para o especialista, uma das principais mudanças trazidas pela norma é a ampliação do olhar sobre o ambiente corporativo e institucional.
“Talvez esse seja um dos pontos mais relevantes da NR-1: a norma desloca a discussão do indivíduo para a organização. O foco deixa de ser apenas ‘como está o trabalhador’ e passa a incluir ‘como o ambiente contribui para o sofrimento’”, destaca.
Na avaliação de Yasui, parte dessas situações acabou sendo naturalizada dentro das escolas ao longo dos anos.
“Na educação, isso significa olhar para questões naturalizadas: sobrecarga emocional docente, excesso de demandas simultâneas, conflitos recorrentes e ausência de suporte técnico para situações cada vez mais complexas”, pontua.
Ele também defende que a qualidade das relações dentro das escolas depende diretamente das condições oferecidas aos profissionais da educação.
“Porque não haverá ambiente acolhedor para estudantes sem sustentação emocional para quem ensina”, conclui.