
Fim da escala 6x1 pode encarecer serviços e pressionar empresas (Foto/Divulgação)
A proposta que prevê o fim da escala 6x1 continua gerando debates entre trabalhadores, empresários e especialistas. Embora a medida seja defendida por ampliar o tempo de descanso e favorecer a qualidade de vida, há preocupação sobre os reflexos econômicos que uma eventual mudança pode provocar em diferentes setores da economia.
Na avaliação da advogada trabalhista empresarial Gabriella Camargo Bicalho, os efeitos financeiros tendem a aparecer antes dos benefícios sociais esperados.
“Considerando o cenário econômico atual do Brasil e também o contexto mundial de desaceleração econômica, os impactos financeiros tendem a ser mais sentidos, no curto e médio prazo, do que os benefícios sociais pretendidos pela medida”, afirma.
A discussão ocorre em um momento de desaceleração da atividade econômica em diversos países e de busca por equilíbrio entre produtividade, geração de empregos e melhores condições de trabalho. Nesse cenário, especialistas apontam que mudanças estruturais nas relações trabalhistas exigem planejamento para evitar impactos sobre a atividade produtiva.
Conta pode chegar a empresas, trabalhadores e consumidores
Um dos principais pontos levantados pela especialista é o custo adicional que pode surgir para manter o mesmo nível de operação em empresas que funcionam diariamente ou dependem de escalas contínuas.
“Embora a proposta tenha um viés social relevante, é necessário observar que a conta econômica inevitavelmente será absorvida por alguém. E, na prática, essa conta tende a recair sobre as próprias empresas, sobre os consumidores e, sobre os próprios trabalhadores”, destaca.
Segundo Gabriella, a manutenção dos salários atuais com uma jornada reduzida eleva o custo da hora trabalhada. Para preservar o funcionamento de setores como comércio, indústria, serviços, agronegócio, saúde, hotelaria e alimentação, muitas empresas poderiam ser obrigadas a reforçar equipes ou reorganizar escalas.
“Isso significa necessidade de contratar mais pessoas ou ampliar escalas para manter o mesmo funcionamento”, explica.
O impacto, porém, não deve ficar restrito ao ambiente corporativo. Especialista avalia que empresas com margens de lucro reduzidas terão pouca capacidade de absorver o aumento das despesas operacionais. Nesses casos, a tendência é que parte dos custos seja incorporada ao valor final de produtos e serviços.
Na prática, isso pode afetar desde refeições em restaurantes e lanchonetes até hospedagens, serviços de transporte, mensalidades, atendimentos particulares e preços praticados no comércio. Setores que dependem fortemente da mão de obra para funcionar tendem a sentir os efeitos de forma mais intensa.
“O empresário precisará recompor margem para continuar operando e, com isso, produtos e serviços podem ficar mais caros”, avalia.
A advogada observa ainda que o consumidor pode perceber os efeitos não apenas por meio de reajustes diretos. Algumas empresas podem optar por reduzir promoções, restringir descontos, diminuir benefícios oferecidos aos clientes ou rever programas de fidelidade para equilibrar as contas.
Economistas também apontam que, caso a medida seja implementada sem mecanismos de transição ou compensação, o aumento dos custos operacionais pode gerar um efeito em cadeia, influenciando preços ao longo de diferentes etapas da produção e da prestação de serviços.
Impacto pode atingir futuras contratações
Outro efeito apontado pela especialista envolve o mercado de trabalho a longo prazo. Embora a proposta em discussão preserve a remuneração dos contratos já existentes, a tendência, segundo ela, é que novas admissões ocorram em condições diferentes.
“Os salários para as mesmas funções provavelmente sofrerão redução de padrão”, afirma.
Na prática, explica Gabriella, empresas poderão buscar formas de equilibrar financeiramente o aumento do custo por hora trabalhada, o que pode influenciar as faixas salariais oferecidas em futuras contratações.
“Salários considerados altos para determinadas funções tendem a cair gradualmente nas novas contratações, porque a empresa precisará compensar financeiramente a perda operacional causada pela diminuição da jornada”, observa.
Apesar das críticas, a advogada reconhece que a proposta tem uma finalidade social relevante. Para ela, o desafio está em encontrar um modelo capaz de proteger os trabalhadores sem comprometer a competitividade das empresas.
“Uma mudança dessa magnitude exigiria transição extremamente gradual, análise setorial e medidas econômicas compensatórias”, defende.
Segundo Gabriella, sem mecanismos que auxiliem a adaptação dos diferentes segmentos produtivos, o país poderá enfrentar aumento do custo de vida, perda de competitividade e maior pressão sobre empresas que já operam em um ambiente econômico desafiador.
“Sem isso, existe risco de aumento do custo de vida, perda de competitividade, redução indireta da renda futura dos trabalhadores e pressão ainda maior sobre empresas que já operam em cenário econômico bastante desafiador”, conclui.