O tempero forte e característico do pedaço de carne enrolado, recheado com cenoura e cebola, era o único rolê que eu conhecia quando era jovem. Era só um modelo sofisticado de bife.
Hoje, os dicionários definem rolê como “qualquer coisa em forma de rolo” – palavra que deriva do francês roulé – ou, ainda, como “dar uma volta, um passeio”.
Voltando aos tempos do bife, em shopping center, nunca se tinha ouvido falar. No prazer inútil de causar pânico em lojistas e em famílias inteiras, só pela sensação vazia de causar medo, também não.
É grave engano subestimar a capacidade de involução humana. Em tempos em que o povo brasileiro se enclausura cada vez mais, detido dentro de suas casas, com medo; em dias em que sobram mães lagrimando pela perda das vidas de seus filhos enchendo a tela de nossas tevês, é justamente nesses momentos que surgem as manadas de jovens soltando fúria pelas ventas, indo buscar o cidadão dentro dos últimos redutos de lazer restantes e trazendo-o para dentro do pavor. Em troca de quê? De nada...
Então, vamos lá. O sujeito que se apresenta diante de outro, intimidando, se arrisca a levar um sopapo ou mesmo um tiro. Logo, se imagina que ele deva, no mínimo, ter um objetivo que justifique correr esses riscos. No caso dos rolezinhos, só há os riscos.
É a vitória suprema da burrice. Um esvaziamento completo de valores morais, viabilizado pelo lado negro das veneradas redes sociais. Muitas faces e poucos books. São jovens experimentando o flerte com o crime. Já há quem não veja como grupo o que eu aqui chamei de manada, e trata a horda como quadrilha. Onde andarão seus pais e mães? Alguma coisa tem de ser feita para que esse flerte não acabe em casamento. O crime é viúvo muitas vezes.
(*) Escritor e contador de estórias e histórias