Se eu fosse um dos milhares de excelentes artistas ignorados pelo Brasil a fora, em busca da fama, da fortuna e do reconhecimento que todo artista deseja, eu machucaria meus joelhos agradecendo ao Criador se cruzasse o meu caminho um sujeito que escrevesse minimamente bem se oferecendo para contar a minha vida. Lá vinha um pouquinho de fama.
Mas será que se eu já tivesse tudo isso – a fama, etc. – eu estaria fazendo parte do movimento Procure Saber?
As biografias não autorizadas estão ameaçadas de proibição por nomes de renome, como Roberto Carlos, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil. Até Caetano Veloso, autor de É proibido proibir entrou nessa. E de cabeça. Quem te viu quem te vê, hein, Caê?
Todo benefício tem um custo. Muito dinheiro e fama trazem muita exposição. E não tem pra onde correr.
Não há história de um país sem biografias. Autorizadas ou não, são peças importantes na transmissão de cultura entre gerações. E o que há de tão terrível nas vidas dos famosos? Serão elas tão diferentes assim das nossas? A resposta é não.
Li recentemente duas biografias. Uma, sobre o comandante Rolim Adolfo Amaro, fundador da TAM. Ao final, o homem que eu conhecia de ouvir falar virou mito. Foi um gênio criativo muito acima da média. A outra, sobre Jacques Cousteau, célebre herói dos mares da minha juventude, autor das melhores produções subaquáticas que se viram até hoje. Neste caso, o mito que eu conheci, morreu e virou homem. Mulherengo e pouco atento à família, foi um sujeito que só gostava do mar, que eu amava. Os amores dele eram o cinema e as mulheres.
Talvez sejam estes mesmos medos dos inimigos das biografias: o de reis perderem as majestades ou o de faltar cemitérios para enterrar tantos mitos.