Pensar profundamente a respeito da morte
Pensar profundamente a respeito da morte é quase sempre dedicar tempo a um assunto penoso. O enigma que a envolve, contudo, é o motor que gera muitas e repetidas perguntas para as quais não temos respostas. E se falar da morte é difícil com adultos, imagine com uma criança.
Minha filha mais jovem é uma criança inquieta e curiosa. A quase todas as suas perguntas que respondo, ela engata um “por quê?”. Assim, não raro, nossas conversas duram mais de uma hora – e eu adoro isso!
Entre astronomia, física e ciências falamos sobre tudo. A morte também já foi assunto entre nós. Na última vez ela revelou sobre o temor de perder as pessoas que mais ama, principalmente pai e mãe. Eu disse a ela que também amo a minha mãe. Deixei-a surpresa com a revelação de que peço a Deus nas minhas orações que a leve para junto de Si antes de mim. Com veemência ela disse que pedia sempre para Deus para ir antes dos pais.
Sentindo o suave toque da pureza dos seus sentimentos, com respeito extremo à sua inocente imaturidade emocional, expliquei-lhe que a dor de se perder os pais é algo que já nos equipa o espírito quando da nossa criação e que a dor maior está na inversão dessa ordem, pela qual os filhos sepultam seus pais. Maridos, mulheres e irmãos vivem na incógnita dos ventos da vida, mas todos supõem que a ordem cronológica vá fazer seu trabalho.
Com carinho, tentei fazê-la perceber que em qualquer uma das situações a dor é grande, mas a vida gentilmente providencia para que nos adaptemos à realidade imutável da morte.
Mas ver partir um filho é algo que está na contramão. Essa não é uma emoção com a qual se possa viver em paz os dias que nos restam. Não temos dispositivos criados para suportar algo que se nos apresenta como um erro da natureza, uma loteria na qual nós somos os improváveis perdedores diante de uma imensa maioria de ganhadores. Disse a ela que não podia imaginar ver minha velha e doce mãe passar por tamanha amargura.
Espero que aquela conversa seja lembrada um dia e dê a ela algum conforto quando o dia que ela tanto teme hoje, enfim, chegar.