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Para gostar de ler e de escrever

Para gostar de escrever basta gostar de ler

Carlos Alberto de Oliveira
Publicado em 25/10/2012 às 20:24Atualizado em 19/12/2022 às 16:41
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Para gostar de escrever basta gostar de ler. Para gostar de ler basta começar. Meu caso de amor com as letras começou com um flerte. Minha estreia com os livros foi folheando O Máscara de Ferro, de Alexandre Dumas, que trazia uma trama embrenhada nos séculos passado e retrasado; falava de reis e rainhas, revoluções populares e guerras. Eu li a obra obrigado pela nota da matéria de português. Talvez por isso este primeiro contato não tenha passado de um flerte. Pouco depois, numa das tantas viagens que nossa família fez a Florianópolis, na casa de praia de meu tio, uma desembestada exposição ao sol rendeu-me uma grave insolação, produzindo em mim queimaduras tão extensas que me deixaram quase imóvel sobre a cama por vários dias. Dentro de várias caixas de papelão, num quarto separado, estavam guardadas dezenas de livros pertencentes ao meu tio. Ele os deixara ali enquanto não terminava a reforma de sua grande casa, no centro da cidade. No início da década de 1970 um garoto com menos de dez anos não dispunha de muitas opções de ocupação dentro de casa nas férias, principalmente no estado em que eu me encontrava. Logo, ler era provavelmente a única. Mais tarde eu aprenderia que era também a melhor, mesmo que já existissem naquele passado todas as seduções eletrônicas dos dias de hoje. Para me despertar algum interesse, um livro tinha que ser fino e com letras grandes, de preferência. Se tivesse ilustrações, melhor ainda: mais imagens para ver, menos letras para ler. Puxei de uma caixa empoeirada um livro que, ao ser aberto, revelou-me que ser pequeno era o único dos meus requisitos que ele atendia. Suas letras eram minúsculas e não havia ilustração alguma. Fui salvo por uma frase que li no movimento de fechá-lo para devolvê-lo à poeira. Algo – que eu não me lembro o quê – chamou-me a atenção. Tornei a abri-lo e percorri com os olhos um pouco mais dele. Resolvi que o leria. “Testemunha de acusação”, foi o primeiro dos muitos livros que eu devorei, escritos pela excelente Agatha Christie e foi também o responsável pela minha saudável contaminação pelo formidável vírus da leitura. Depois dele vieram outros autores e gêneros diversos. Comecei minhas incursões pelo mundo da escrita elaborando cartas às minhas primeiras paixões, ainda pré-adolescente. Punha nos textos tudo o que sentia. Fazia deles o instrumento de propagação de tudo o que o coração queria dizer, mas que a timidez não deixava. Foram dezenas, centenas, talvez. Escrevê-las era como a extensão do meu namoro. Em breve elas seriam lidas e eu imaginava que elas me ouvissem dizendo as palavras que liam, tal como acontecia comigo em relação às respostas delas. Já com uns quarenta e poucos anos, depois de tantas idas e vindas, fui presenteado com um exemplar da Revista Náutica onde, por mera casualidade, havia uma página inteira conclamando leitores que enviassem à redação um texto que justificasse a publicação de alguma aventura vivida por eles no mar. Eu tinha uma e o desafio me animou. Enviei minha tentativa de convencimento e a resposta foi um convite do diretor de redação para conhecer as instalações da revista, o que foi para mim a realização do sonho de estar “dentro” da revista que eu mais gostava de ler havia tantos anos. Minha aventura inaugurou a seção Vida Náutica e eu ainda vi publicada uma outra depois. Ambas fazem parte do portfólio de contos deste site. A seguir, fui convidado a resumir um livro que narrava a travessia do Oceano Atlântico a remo, a Atlantic Rowing Race, o que rendeu uma matéria de sete páginas de Náutica. Por fim, tive publicada em Seleções do Reader’s Digest um episódio vivido com meu filho, também escrita aqui. Escrever é – entre outras coisas – reviver experiências, rever rostos já quase esquecidos, rir de novo de velhas piadas, rir do choro de ontem. Nas vidas de todos nós há um vasto repertório de experiências que poderiam facilmente virar textos interessantes, agradáveis de se ler, com a poesia natural da vida passada para o papel. Com a mais absoluta das certezas ela vai achar alguém a quem encantar. Boas leituras. Um forte abraço...

(*) Escritor

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