Em tempos em que eu ainda só me interessava por figuras, minha irmã mais velha lia para mim as fábulas que davam voz a animais e as parábolas que sempre traziam bons exemplos e valores.
Entre as clássicas aventuras que marcaram essa infância estava a do boneco de madeira Pinóquio. A criação de Carlo Collodi falava e andava exatamente como um menino de verdade e cujo maior desejo era o de tornar-se gente. Mas não podia mentir, senão seu nariz crescia. Tamanha injustiça com o boneco! Se todos fôssemos assim, tomar o Metrô em horário de rush seria cômico, porque trágico, já é. E circular pelos corredores do Congresso? Os monumentais focinhos comportariam um lençol estendido neles.
Ler para crianças é meio demodê, eu sei. Um boneco de madeira que fala pode não ser lá muito interessante para uma criança moderna. Mas, já que ela vai dormir, por que não colocar perto da cabeceira da sua cama um banquinho e dedicar-lhe uma leitura?
Caso não se tenha à mão um livro infantil, pode-se começar por um adulto mesmo. A Constituição seria excelente.
Talvez os seus preceitos causem no jovem ouvinte a mesma impressão de fantasia que a história de Pinóquio imprimiu nos pequenos de ontem. Tal qual a literatura infantil antiga, ela daria esplêndidas noções de humanidade e respeito às pessoas, artigo de luxo nos nossos pobres dias. De olhos fechados, eles vislumbrariam um mundo igualitário, um país governado pelos interesses mais nobres que um líder possa ter, repleto de escolas e hospitais, seguro e justo, respeitador de seu povo e seus orçamentos. Se não é o mundo em que as nossas crianças vivem, é certamente o mundo como ele deveria ser. O resultado disso? Sei não...
Pensando bem, sinto-me aliviado por não ser como Pinóquio. Se fosse, talvez meu pequeno audiente abrisse os olhinhos e visse em mim, antes que eu virasse a primeira página da Carta Magna, um nariz de um metro e meio.