Era uma vez, o papai... Este era o início clássico
“Era uma vez, o papai...”. Este era o início clássico das muitas aventuras que eu narrava para o meu filho todas as noites. Não era raro que ao final já da segunda história ele ainda estivesse acordado, atento, com os olhos fixos no teto do quarto, que certamente lhe servia de tela onde ele projetava as imagens de tudo aquilo que ouvia e que eu daria tudo para ver.
As minhas vivências infantis me deram um vasto repertório de contos perfeitos para ilustrar as noites pré-sono dos meus filhos e, hoje, o ânimo para deixar aqui a sugestão de que você também leia para os seus filhos na hora de dormir.
Pouco importa se o caso que vai ser contado é ou não real. Para uma criança, naquele momento, será.
Mesmo que a narrativa inclua uma cena tenebrosa para uma criança, como um lobo com dentes enormes expostos, prestes a abocanhar uma inocente menininha de vermelho, a criança saberá que, vindo de você, tudo vai acabar bem.
Se você não tem mesmo jeito para contar histórias, leia uma. É muito provável que em algum lugar dos seus guardados haja um livro antigo com alguma fábula que uma criança adoraria ouvir. Caso não tenha, procure um livro adequado à faixa etária do seu ouvintezinho. Até mesmo um gibi pode servir para transportar a criança ao cenário mágico que só a pureza pueril é capaz de criar.
Ler para uma criança é dar a ela a preciosa oportunidade da criação de dois vínculos essenciais na sua vida. Um deles é despertar em sua mente o interesse pela leitura, colocando esse bom hábito como parte do seu mundo; o outro é estabelecer uma conexão de indizível afeto entre ela e você.
Eu mesmo só posso escrever sobre aquelas noites de vinte anos atrás porque elas deixaram em nós lindas marcas de saudade de tempos que hoje tanta falta nos fazem, a mim e a ele, que as temos nos nossos corações.
Aproveite também para utilizar este momento para educar a sua criança. Uma boa história pode muito bem servir como coadjuvante no difícil processo de preparação de um filho para enfrentar a doideira do mundo lá de fora. Tudo o que for ouvido poderá ser absorvido como exemplo a ser seguido. Você pode inclusive fazer algumas adaptações que se adequem a alguma situação que esteja em curso naquele momento, melhorando assim a sua própria capacidade de criação e despertando a da criança.
Imagine seu filho indo escovar os dentes para dormir sem reclamar, contente porque uma nova história está prestes a começar. Vale muito a pena dedicar alguns minutos do seu tempo para isso. Você logo perceberá o bem que isso vai espalhar pela casa e atingirá a todos que nela vivem.
Você estabelecerá definitivamente uma nova relação entre você e o seu miúdo.
Ao final, as noites de uma vida que começaram com o imaginário “era uma vez...” terão chances bem maiores de terminarem com a realidade do “viveram felizes para sempre”.
(*) Escritor e contador de histórias e estórias