Há 20 anos, Antônio Rogério do Nascimento, conhecido no Brasil e no mundo como Neguinho do Asfalto, fez uma promessa de que se pudesse voltar a andar e enxergar passaria 30 anos de sua vida em cima de uma bicicleta rodando sem destino. De lá para cá, segundo seus próprios cálculos, já foram pedalados mais de 300 mil quilômetros. Nesse percurso ele afirma já ter usado 345 pneus, 278 câmaras de ar, 397 pares de tênis e sete bicicletas. O ciclista nasceu com diversos problemas de saúde e aos 12 anos, após várias cirurgias, deixou o hospital. Dois anos depois, fez uma promessa que mudaria completamente a sua vida. “Aos 14 anos de idade, no dia 1º de fevereiro de 1990 eu fiz uma promessa, que era rodar 30 anos de bicicleta”, afirmou Neguinho, que hoje tem 37 anos e segue tomando medicamentos por causa de seus problemas de saúde. Nesse período, o ciclista conta passou por toda a América Latina chegando até o México. Depois ganhou uma passagem de avião para a África, e lá pedalou por vários países como Angola, Moçambique, Senegal e Sudão. “Vou sempre para algum lugar que eu nunca passei. Porque não adianta ir para os mesmos lugares”, conta Neguinho, que também já rodou por todos os cantos do Brasil e espera encerrar sua jornada no Canadá. Em cada lugar que vai, conta com a solidariedade das pessoas para ter o que comer e um lugar para passar a noite. “Eu vivo com a ajuda da população e dos caminhoneiros que me conhecem na estrada. Cada um me ajuda com um pouquinho. Tem prefeitura que ajuda e também tem aquelas que batem na minha cara”. Em uma de suas últimas andanças, Neguinho foi assaltado, teve sua bicicleta e seu telefone celular furtados. Conseguiu outra bicicleta, mas não tinha como se comunicar com seus seguidores na internet, uma vez que a cada lugar visitado, uma foto era postada. Mas graças ao ouvinte Renato, da Rádio JM, já conseguiu um novo aparelho. Segundo ele, um dos lugares por onde passou dificuldade nesses mais de 20 anos de estrada, foi no Norte do país. “O lugar mais curioso que eu andei foi na Transamazônica. Lá tive que comer cobra, sapo, lagarto e tive que urinar na mão para matar a sede porque não achava posto nem casa”. Com uma história de vida tão diferente, Neguinho contou que já escreveu muitos cadernos de diário e que eles já lhe renderam um livro intitulado “A vida de um sofredor”, que deve ser publicado em breve. Além disso, ele afirmou que existe a ideia de ser rodado um filme sobre ele. Mas antes de pedir muita coisa para fazer o filme, ele só quer uma coisa. “Pedi para eles fazerem isso por mim para que eu ganhe algum dinheiro para comer até 2022. Só isso está ótimo”. Mas antes de pensar no fim da promessa, Neguinho não precisa de muita coisa para passar a noite. “O que eu quero é um lugar para ficar até amanhã, para descansar, e também arrumar dois pneus e duas câmaras de ar e seguir viagem”. Ainda com quase uma década de chão para percorrer, o ciclista já sabe o que quer assim que encerrar essa longa jornada. “Quando eu acabar a promessa, eu quero que Deus me leve. Porque o resto aqui eu já conheço. Nunca estudei e falo vários idiomas. Quem ensina a viver não é pai e nem mãe, o mundo ensina”. Hoje, Neguinho já deixou Uberaba para cumprir mais um dia de sua promessa.