ARTICULISTAS

Diplomas rasgados

Não vai longe o tempo em que eu via pela cidade um senhor austero vestido de branco portando uma valise contendo instrumentais cirúrgicos. Estava ali um dentista prático, itinerante

João Eurípedes Sabino
Publicado em 03/08/2018 às 10:18Atualizado em 20/12/2022 às 12:01
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Não vai longe o tempo em que eu via pela cidade um senhor austero vestido de branco portando uma valise contendo instrumentais cirúrgicos. Estava ali um dentista prático, itinerante e destocador de bocas que os donos até hoje amargam tamanha imperícia. Os rábulas na Advocacia há não muito tempo faziam frente aos advogados. Um Nelson Hungria, um Pimenta da Veiga e outros juristas não menos famosos aqui vieram para defender ilustres e encontraram  leigos navegando de beca sem ter formação suficiente. O nosso CREA concedia licença a construtores e esses, sem conhecimentos científicos, concorriam com engenheiros. O rosário de exemplos é imenso... mas isso já passou.

Deparamos hoje com a dispensa do diploma para o exercício da profissão de Jornalista. Vejo nessa decisão do Supremo Tribunal Federal, data máxima vênia, a mais legítima volta aos tempos do carro de boi. No mundo cibernético em que vivemos, dispensar um diploma dessa ordem é o mesmo que rasgá-lo por atacado. O gesto, se bem comparado, cheira a “santa inquisição”. Quantos sonhos e esperanças foram soterrados por um homem atrás de uma simples caneta. Do excesso de poder a um desatino, a distância é menor do que um passo...

Nunca se ampliou tanto a área universitária no Brasil quanto agora, isso devemos reconhecer. Cursos e mais cursos de Jornalismo se proliferaram no País e, paralelamente, permitiram o registro dos que tinham ou têm experiência na matéria. Até aí tudo bem, mas jogar por terra quase trinta anos de normatização com bons resultados palpáveis é no mínimo brincar com algo absolutamente sério. Não está autorizado passar a informação quem simplesmente domina o vernáculo. Esse mister, que vai além do imaginável, hoje não dispensa a técnica, que só é adquirida nos bancos da escola. Realmente, a Justiça é cega quando mais precisa ver.

Causa-me apreensão quando sei que outros cursos superiores poderão ter o mesmo destino do Jornalismo, ou seja, novos diplomas serão rasgados. Filósofo é o homem que tem noção de tudo sem ser doutor em nada. E então, rasgaríamos o diploma de filósofo? Nada contra os diplomados em Filosofia ou qualquer outra ciência.

(*) presidente do Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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