Trabalhadores relatam dificuldades para pagar contas, comprar medicamentos e cumprir obrigações familiares
Profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que atuam em Uberaba e região procuraram a reportagem do Jornal da Manhã para denunciar atrasos recorrentes no pagamento dos salários. Segundo relatos, a situação vem ocorrendo há pelo menos cinco meses e afeta trabalhadores de diferentes categorias, incluindo condutores socorristas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e médicos.
De acordo com um dos denunciantes, a justificativa apresentada pela administração é de que os repasses financeiros estariam sendo realizados pelo Estado de forma mensal, mas os pagamentos aos profissionais têm ocorrido com atraso. Ainda segundo um dos denunciantes, os trabalhadores são constantemente orientados a manter a confiança de que a situação será regularizada, porém afirmam que não recebem informações claras sobre prazos e motivos dos atrasos.
Os profissionais relatam que a situação tem provocado impactos diretos na vida financeira das equipes. Há casos de trabalhadores com dificuldades para comprar medicamentos, quitar contas básicas e cumprir obrigações como pagamento de pensão alimentícia, que dependem de datas específicas. Segundo os relatos, em um dos meses anteriores alguns médicos teriam aguardado até o final do mês para receber os vencimentos.
Mesmo diante dos atrasos, os profissionais afirmam que continuam desempenhando suas funções normalmente por compreenderem a importância do serviço para a população dos 27 municípios atendidos pelo Samu Regional. Segundo os trabalhadores, o compromisso com o atendimento de urgência e emergência tem prevalecido, mas eles cobram maior valorização e respeito aos seus direitos, argumentando que aqueles que atuam para salvar vidas também precisam de condições para manter seus compromissos pessoais e familiares em dia.
Paralelamente às denúncias encaminhadas em Uberaba, profissionais do Samu de Araxá divulgaram uma carta aberta de indignação direcionada à coordenação do serviço, ao Consórcio Público Intermunicipal de Saúde da Rede de Urgência e Emergência da Macrorregião do Triângulo Sul (Cistrisul), aos órgãos fiscalizadores e à população. No documento, os trabalhadores classificam como inadmissível a recorrência dos atrasos salariais e afirmam que a situação compromete o sustento de suas famílias.
A carta também aponta supostos descumprimentos de obrigações previstas em edital e nos contratos de trabalho, entre eles atrasos ou falta de fornecimento de vale-transporte, ausência de convênio médico prometido aos trabalhadores, descumprimento de benefícios previstos e falta de transparência sobre pagamentos e direitos trabalhistas.
Os profissionais defendem que a qualidade do atendimento prestado pelo Samu está diretamente relacionada à valorização das equipes e cobram a regularização imediata dos salários, o cumprimento integral dos benefícios previstos, maior transparência sobre a situação financeira do consórcio e respeito aos trabalhadores que atuam no atendimento de urgência e emergência.
O Cistrisul é responsável pela gestão do Samu Regional do Triângulo Sul e atende 27 municípios da macrorregião, abrangendo uma população superior a 700 mil habitantes. A estrutura conta com sede administrativa e Central de Regulação em Uberaba, além de 17 bases descentralizadas, 19 Unidades de Suporte Básico (USBs) e cinco Unidades de Suporte Avançado (USAs). Atualmente, a presidência do consórcio é exercida pela prefeita de Uberaba, Elisa Gonçalves de Araújo, tendo como vice-presidente o prefeito de Pirajuba, Airton Alves.
A reportagem do Jornal da Manhã procurou o Cistrisul para solicitar esclarecimentos sobre os atrasos salariais relatados pelos profissionais, bem como sobre as denúncias envolvendo benefícios trabalhistas. A assessoria do consórcio informou que encaminharia uma nota oficial sobre o assunto. No entanto, até o fechamento desta matéria, nenhum posicionamento havia sido enviado. O espaço segue aberto para manifestação.
Veja na integra a carta aberta dos profissionais de Araxá:
CARTA ABERTA DE DENÚNCIA E INDIGNAÇÃO
À Coordenação do SAMU, CISTRI-SUL, autoridades competentes, Ministério Público, órgãos fiscalizadores e à população.
Nós, profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), vimos por meio desta carta aberta manifestar nossa profunda indignação diante da situação enfrentada pelos trabalhadores da instituição.
É inadmissível que profissionais responsáveis por salvar vidas diariamente, atuando em situações de extrema pressão, risco e responsabilidade, estejam sofrendo com atrasos recorrentes de salários, comprometendo o sustento de suas famílias e gerando insegurança financeira.
Além disso, denunciamos o descumprimento de obrigações previstas em edital e contratos de trabalho, incluindo:
Falta ou atraso no fornecimento do vale-transporte;
Ausência de convênio médico prometido aos trabalhadores;
Descumprimento de benefícios previstos no edital;
Falta de transparência sobre pagamentos e direitos trabalhistas;
Desvalorização dos profissionais que garantem o funcionamento do serviço de urgência e emergência.
Enquanto os colaboradores mantêm seu compromisso com a população, muitas vezes abrindo mão de momentos com suas famílias e colocando suas próprias vidas em risco, enfrentam o desrespeito de não receber seus direitos básicos em dia.
O SAMU é um serviço essencial para a população, mas sua qualidade depende diretamente da valorização e do respeito aos profissionais que o compõem. Não é razoável exigir excelência no atendimento quando direitos trabalhistas fundamentais não estão sendo cumpridos.
Diante dos fatos, solicitamos:
Regularização imediata dos salários em atraso;
Cumprimento integral do edital e dos contratos de trabalho;
Garantia do fornecimento de vale-transporte e demais benefícios;
Transparência sobre os motivos dos atrasos e as medidas adotadas;
Respeito e valorização dos profissionais do SAMU.
Caso a situação persista, entendemos ser necessária a intervenção dos órgãos competentes para apuração das irregularidades e garantia dos direitos dos trabalhadores.
Esta carta não representa apenas uma reclamação, mas um pedido de respeito àqueles que, diariamente, dedicam suas vidas ao atendimento da população nos momentos mais críticos.
Valorizar quem salva vidas não é favor, é obrigação.
Atenciosamente,
Profissionais do SAMU
Araxá/MG e Região
Junho de 2026