ARTICULISTAS

Doce de tangerina ou de toranja?

Vânia Maria Resende
Publicado em 22/07/2026 às 18:47
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Quando alguém diz: “Minha vida dá um livro”, dá mesmo. Se for narrado o que se passa dentro de uma casa e dos que a habitam, o gênero se definirá como policial, picaresco, de aventura, mistério, gótico, sentimental, ou como um misto de tudo isso. Duas casas e seus moradores vêm à tona na minha memória, com episódios, figuras e imagens que cabem em uma narrativa. Uma era de frente à minha; outra ficava a alguns quarteirões do meu. Essa a minha mãe visitava de vez em quando e dava para o filho ou a filha que ia junto a alegria do passeio e de comer doce caseiro de tangerina.  

Tangerina. Esse nome não é comum em Minas. Aqui ela é conhecida como mexerica, e a sobremesa feita da casca e do gomo ficou rara no contexto urbano atual. A vaga lembrança do doce da infância me levou a buscar informações sobre a fruta, e descobri curiosidades sobre sua história, origem, tipos diferentes, variações do nome no Brasil. Li que ela é mãe da laranja; seu cultivo depende de insetos polinizadores; é originária da Ásia. Vi a imagem linda da flor da qual ela surge. Entendi que a elevação no seu preço se deve a problemas climáticos e doenças que atacam a citricultura.

Como veem, apenas a tangerina ou mexerica já seria matéria para um artigo, e até mais que isso, porque, pensando bem, não apenas a vida de gente dá um livro, a de frutas e animais, também. Alonguei-me na conversa sobre a fruta e não falei ainda sobre a casa onde se oferecia o doce (curiosamente, vem-me à mente doce de tangerina, não de mexerica, como é chamada em terra mineira). Moravam junto quatro pessoas de nome e apelido que refletiam a estranheza de cada tipo: Honória, Bita, Fio, Tela. Tela era a Auristela, tia da minha mãe; a atração mútua entre as excentricidades deve ter sido o motivo de ir morar com os três.

Honória era gorda, pele clara, tinha o rosto parecido com o de um gato, e também o seu falar devagar, meio manhoso, lembrava miado. Bita era morena, magrinha, sem lentidão; talvez fosse a que fizesse o doce. Fio era fechado, recolhido no seu mundo, ficava parado nos cantos, sem falar com ninguém, comportamento indicativo de algum transtorno psiquiátrico. Eu via nele a essência de um ser puro. A cunhada Castorina, de nome esquisito, que não se ouve mais, hospedava-se sempre com eles.

Diante da minha observação diária estava a outra casa. Sobre ela e os moradores pairava um ar de temor e dúvidas. Criou-se sobre eles talvez um preconceito e uma atmosfera misteriosa, a que se somava o suicídio de uma das filhas, além de outros fatores. O casal tinha um filho rapaz, o Joãozinho Capeta; não sei a razão desse apelido. O pai era cabo da Polícia Militar, chamava-se João Evangelista. Uma contradição entre os dois: um homenageava, no nome, o apóstolo e santo, o outro reverenciava o diabo.

O habitante de menos idade era o neto adolescente. Ele morava com a mãe na casa dos seus avós. Considerado encapetado, como todo garoto levado, pronto a fazer arte, não saía da minha casa e cativava todos com seus gracejos. Era amigo dos meus irmãos, de idade próxima à dele, mas não contava nada da intimidade familiar que fosse pista ao que a vizinhança imaginava. Outros dois moradores, o carioca Aírton e o pacato Biluca, não tinham parentesco com a família, mas eram tão estranhos quanto ela.

Nada era mais estranho, porém, do que a rixa entre o pessoal ou alguém da casa e o temido criminoso local, o Tatuado. Em Uberaba, corria a lenda ou a verdade de que ele tinha uma lista de desafetos, marcados de morte. Numa noite, a rua em silêncio, as pessoas já recolhidas para dormir (era comum dormir cedo), duas das minhas irmãs estavam no alpendre e viram uma cena assustadora. O famoso matador, recém-saído da prisão, passava em frente à dita casa atirando e gritando “Cabo João! Cabo João!”.

Pelo visto, a ameaça não abalou ninguém lá dentro, o que fez crescer o temor e o inexplicável com relação à casa. O neto deve ter torcido para que acontecesse um duelo, que para ele não seria mais do que uma aventura juvenil. Anos se passaram, ele se tornou adulto, e um dia correu o boato de um duelo, de fato, não com o Tatuado. Falava-se de uma arte grande que ele fez, não como as da adolescência, mas fica para quem sabe disso contar.

O título “Se a memória não me falha” do livro de Sylvia Orthof faz cogitar que as estranhezas como as que lembrei são sujeitas a lapso. Pelo sim, pelo não, fico com o sim, certa de que são matéria real de vida em toda casa. Sobre o doce, se a memória não me falha, era de tangerina, ou, talvez, de toranja, já que elas são da mesma família e têm algo sonoro em comum.

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