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Conversa inusitada

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 08/06/2026 às 18:21
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Um abacate e um abacaxi conversavam na prateleira do supermercado. Foi logo depois que a loja abriu, poucas pessoas entre as prateleiras. Após as saudações iniciais, o assunto descambou sobre qual dos dois seria escolhido primeiro. “Tomara que seja eu”, disse o abacaxi, afirmando que não aguentava mais ficar ali, parado, esperando os fregueses.

O abacate discordou, disse que sua popularidade estava em alta, mas reclamou quando se lembrou dos que passam pela gôndola das frutas e o apertam, cheiram, faltando só o lamberem. Por isso, queria ir embora, cumprir seu destino de alimentar as pessoas. Segundo seu próprio juízo, era desagradável passar o dia sendo avaliado, ouvindo comentários sobre sua maturidade, doçura, sabor.

Era um abacate culto. Se frutas lessem livros, o mundo seria diferente. A vida não está fácil para ninguém. Outro dia, a repositora da seção avisou que a empresa não estava vendendo bem. “E nós com isso?”, falou o companheiro de prateleira. “Abacaxi, manga, laranja, banana, morango, nossa função é alimentar o povo, é virar suco, sorvete, ingrediente de tortas e bolos. Qual é o problema? Não temos nada a ver com mercado, preço e vendas”, disse o indignado abacaxi.

O abacate, preocupado com a ausência de percepção crítica do colega, soltou esta: “Aí é que você se engana, você sabia que, apesar da nossa vantagem natural, estamos sofrendo violenta concorrência dos ultraprocessados, de produtos artificiais e outras inconstâncias econômicas e climáticas?”

O abacaxi reclamou: “Vai dar uma de espertinho agora? Quem você pensa que é, economista, sociólogo, nutricionista?” A resposta veio rápida: “Sou apenas uma fruta tropical, cheia de amor e vitamina pra dar. Mas tenho senso de observação apurado”.

O debate estava extrapolando os limites da seção. O abacaxi afirmou que só desejava encontrar uma boa mesa, um bom garfo e uma faca afiada. “Quem sabe não viro sorvete de abacaxi ou um suco temperado com hortelã?” Num tom de desabafo, concordou que, se não podiam mudar o mundo, pelo menos poderiam ajudar as pessoas a refletir sobre o que comem.

O abacate, entristecido, criticou a quantidade imensa de agrotóxicos a que eles são submetidos ao longo da vida. O abacaxi se surpreendeu: “Eu nem sei o que é isso. Agrotóxico? É algum tempero?”. Incrédulo com a ignorância do colega, o abacate falou que se tratava de veneno. Aliás, produtos muitíssimo prejudiciais à saúde humana. Fazem mal às pessoas, aos pássaros, aos mamíferos, aos insetos, aos peixes, enfim, ao meio ambiente. O coitado do abacaxi comentou que devia ser por isso que alguns passavam por ele com olhar desconfiado.

Faltam informações indicando se os alimentos estão contaminados, ou não, e a identificação dos produtos que recebem durante o processo de cultivo. Muitos desistem de os levar para casa por indecisão, por falta de informação. Como condená-los? Se as frutas falassem, isso nos deixaria mais tranquilos, não é?

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