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Filmes de Ficção Científica (VIII): 2001, Uma Odisseia no Espaço

Publicado em 18/07/2026 às 17:47
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O diretor Stanley Kubrick (1928-1999) bordejou por vários gêneros cinematográficos, realizando alguns filmes expressivos, a exemplo de Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, EUA, 1957), Doutor Fantástico (Dr. Strangelove, EE.UU., 1964), Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, EUA, 1971) e Barry Lindon (Idem, Grã-Bretanha, 1975).

Já o mesmo não se pode dizer dos frustrados e frustrantes O Iluminado (The Shining, EUA, 1980) e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, Grã-Bretanha, 1999), dois retumbantes fracassos em todos os sentidos.

2001, Uma Odisseia no Espaço (2001, A Space Odyssey, EUA/Grã-Bretanha, 1968) se inclui, tranquilamente, em seu melhor grupo de filmes.

Além de sua monumentalidade, é, sem dúvida, a ficção científica mais requintada e cuidada do cinema.

Já desde as cenas iniciais, com a longa sequência em área desértica habitada por tribos de símios, esplende na tela a beleza da paisagem nua com suas formas esculpidas pelo tempo e pelos ventos.

A ação e a reação desses seres primitivos são antológicas pela propriedade e autenticidade com que são estruturadas e conduzidas. É tanta a perfeição que induz a crer que era e foi assim, não podendo ser de outra maneira.

Além disso, ainda se salientam nessa sequência dois fatos ou duas cenas plenas de significado e consequências. Uma delas, o aparecimento do monólito, que tanto espanta os símios quanto iria gerar perplexidade alguns milhões de anos depois.

Outra, a grandiosa elipse, a mais longa e radical do cinema, na qual o osso atirado para o ar por um símio, que por sinal, havia com ele descoberto seu uso como arma, é seguido imediatamente por portentosa espaçonave numa das cenas inolvidáveis do cinema.

A série de atributos não para aí, no entanto. Na referida nave e na estação espacial onde acopla, também se ressaltam o requinte e a suntuosidade da realização, constituindo, tudo, desde os menores detalhes, uma festa para os olhos pelo deslumbramento que provoca. A verdadeira dança espacial da aproximação da espaçonave da base em contraponto com um planeta ao som de Danúbio Azul, de Strauss, imprime-lhe a grandiosidade das epopeias, como refletida na própria titulação fílmica.

Ainda não se restringem a isso, as virtualidades fílmicas. O objetivo da viagem interplanetária em direção a Júpiter é tão importante quanto pertinente no estádio civilizatório e tecnológico em que se processa, que se pode atribuir principalmente a Artur Clarke que, juntamente com Kubrick, responsabiliza-se pelo roteiro.

Contudo, o grande achado do filme é o computador Hal 9000 que comanda totalmente a nave, agindo e reagindo, inclusive emocionalmente, como qualquer humano, no que mora o perigo, já que é também dado à inveja, ciúme, ódio e sentimento de vingança.

Ao contrário do falível humanoide, esse computador se julga “infalível e incapaz de errar”. Se julga...

Conquanto tenha o comando e dirija a nave, Hal 9000 expõe a um dos astronautas ativos (três jazem hibernados para animação no momento oportuno), que “sei que ainda não me livrei completamente da suspeita de que há alguma coisa muito estranha nessa missão”, o que, partindo de supercomputador nas condições em que se encontrava causa espécie.

Mas, aí é que reside a maior sutileza do filme, a finalidade secreta da missão, cujo conhecimento até a ele é sonegado, não obstante conheça o plano de voo.

Após cenas traumáticas decorridas no interior e nas imediações da nave, um dos astronautas lança-se em pequena cápsula espacial num turbilhão vertiginoso e fantástico de jogos de luzes cambiantes em suas fosforescências e dissolvências, provocando efeitos belíssimos, em sequência, ao que se sabe, até então inédita no cinema.

Todavia, a partir daí, a grande odisseia espacial de Kubrick/Clarke se perde numa sequência absolutamente abstrusa e incompreensível, de todo e em todo despropositada, pernóstica, absurda e mesmo deprimente, ditada por impulsos extravagantes e delirantes.

Poucas grandes obras de arte são tão estragadas em seu final como esse filme. Uma delas é o romance Guerra e Paz (1869), de Tolstoi, com sua longa, desnecessária e caótica algaravia sobre interpretação dos fatos históricos, vontade das massas, liberdade, divindade e ações humanas.

Contudo, expungidas dessas esdrúxulas conclusões, que não contaminam seu núcleo essencial, conquanto comprometam seus autores, essas obras, o romance e o filme (duas epopeias grandiosas), atingem o máximo padrão estético possível. O que é tudo.

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