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Filmes de Ficção Científica (VII): Fahrenheit 451

Guido Bilharinho
Publicado em 11/07/2026 às 17:43
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Por mais que queiram os admiradores do cineasta francês François Truffaut (1932-1984) valorizar Fahrenheit 451 (idem, Grã-Bretanha, 1966), baseado em obra homônima de Ray Bradbury, de 1953, o filme não responde nem corresponde. Sua debilidade cinematográfica é tanta que não se distingue, ficcional e cinematograficamente, de nenhum medíocre filme comercial.

Eleita a história, convocados os técnicos e os atores, Truffaut os arma e os dirige o mais convencionalmente possível, narrando linear, expositiva e naturalisticamente a história.

Entretanto, neste caso, ao contrário do “entretanto” de Shakespeare em Antônio e Cleópatra (Ato II, cena V), em que esta o vitupera, afirmando que “é um bom carcereiro, encarregado de soltar algum monstruoso malfeitor”, aqui liberta ou traz à colação o que há de virtuoso no filme.

E isso é o tema e certa maneira de conduzi-lo, ou seja, com a frieza correspondente à opacidade de vidas humanas condicionadas e mesmerizadas pelo poder, esvaziadas de emoção e despidas de um sentido de viver para além das precisas coordenadas mentais e funcionais impostas.

         Nada mais exemplificativo de extrema radicalização diretiva do que a proibição da leitura de livros, sua criminalização e metódica destruição.

Um regime que exercita essa prática como política de Estado atinge o máximo de poder e domínio sobre a sociedade, que, por esmagadora maioria, o aceita, adota suas proposições e as exercita, considerando, como faz a esposa do protagonista, a leitura um ato criminoso, não passando, pois, essa maioria de conjunto de autômatos sem vida, simples zumbis despersonalizados.

Contudo, essa trama não é fruto da imaginação, mas correspondência metafórica de realidade de nossos dias, antevista por Bradbury deste então.

Do mesmo modo que no filme, a leitura, os livros, o estudo e o saber estão sendo marginalizados sem necessidade do uso da força física e da violência, dispensando o poder organizativo do Estado para essa defenestração.

A própria necessidade de produção em escala para obter lucratividade vem desenvolvendo natural e sutilmente política de desprestígio daqueles valores.

Lançando mão dos mecanismos de comunicação que financia, sustenta e domina por força da publicidade (que tanto serve para propagação de seus produtos e de seu ideário quanto de manutenção e domesticação da mídia), cria-se, estimula-se e direciona-se o gosto da sociedade para o consumo desses produtos, que de recursos e instrumentos de vida passam à finalidade e objeto do desejo ansioso das multidões.

É de significação atroz a cena em que uma mulher, para mostrar que a vizinha era diferente de todos, indica o telhado de sua casa sem a indefectível antena de televisão. A TV é há tempos o máximo denominador comum da subordinação e subserviência intelectual do ser humano à massificação do gosto, ao nivelamento por baixo e ao total condicionamento de opiniões, gostos e desconhecimento do que realmente é básico e importante na sociedade.

Para se alcançar esse desiderato, padroniza-se o gosto, multiplicando-o por milhões de pessoas que passam a apreciar o mesmo tipo de música, livro, filmes e espetáculos ocos, todos esvaziados de conteúdo e sentido, elevados pela população condicionada à quintessência do gosto, da modernidade e da atualização. “Nós temos que ser iguais, só seremos felizes se formos todos iguais”, afirma o capitão dos bombeiros.

As personagens fílmicas que se refugiam no fundo dos bosques para, cada uma decorando um livro, mantê-lo vivo na memória para sua conservação e transmissão, tem sua exata correspondência nos raríssimos intelectuais – e quando se o diz está a se referir àqueles que raciocinam criticamente – que são livres mentalmente, têm consciência dessa problemática, leem e produzem conhecimento e obras de criação. À semelhança dos que se reúnem no bosque fílmico, também aglutinam-se uns aos outros em pequenos (e isoladíssimos) grupos pensantes. Não são perseguidos fisicamente como as personagens fílmicas, mas também não se lhes dão espaço para divulgação e debates de ideias, das realmente eficazes, e de livros, os analíticos, conscientes e críticos. Nessa situação social nem teriam grandes plateias visto que a maioria autômata e zumbi por eles não se interessam.

A frieza fílmica do relacionamento das personagens agentes ou dopadas pela imposição do regime reflete adequadamente a rigidez emocional das marionetes fabricadas pelas medidas impostas, constituindo, sem dúvida, a única (porém grande) qualidade do filme, no qual a ideia de transformar os bombeiros em incendiários de livros à força de lança-chamas e querosene é também excepcional (porém, oriunda do texto e não do cineasta).

         O isolamento e desconforto moderno dos intelectuais num mar de seres humanos alheios, refratários e, em muitos casos, hostis às mais elevadas e sofisticadas formas de arte é semelhante (ou até pior) que os das personagens (pessoas-livros) confinadas nos bosques decorando livros para garantir-lhes a sobrevivência e a perenidade que merecem.

         Em qualquer cidade, em todo conjunto humano, quantos indivíduos leram Homero? Quantos, no Brasil, leram Machado de Assis? Quantos leem Humberto Henriques, o maior fenômeno literário brasileiro?

Como declara o intelectual que recepcionou Montag, o protagonista, no bosque, “somos uma minoria indesejada gritando no meio do deserto”.

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