A noite prometia ser longa no pronto-socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo. Eu acompanhava meu irmão e enquanto esperávamos pelo atendimento numa bela sala de espera recém-reformada, sentou-se ao meu lado uma mulher meio agoniada, não respirava muito bem. Com sotaque espanhol, disse que achava que estava com sinusite e talvez por isso tenha sido atendida antes de nós. Já medicada, voltou a sentar-se conosco enquanto aguardava o resultado de uma radiografia da face. Disse ser uma jornalista chilena que fazia uma reportagem para a TV francesa sobre a Copa do Mundo no Brasil.
Pedi a ela, então, que me dissesse como o Brasil e seu povo eram vistos lá fora. Em tom jornalístico, revelou que somos considerados o povo mais alegre do planeta. Disse que pessoas sonham em visitar a terra do samba para conhecer de perto essa alegria e – quem sabe? – contaminar-se com ela.
A moçoila, porém, me surpreendeu dizendo que a realidade vista por quem penetra na nossa sociedade é a de que o nosso povo deseja de fato ser alegre, tenta por todos os meios, mas esbarra na falta de saúde, de segurança e de educação. Disse ver o povo que quer ser alegre chorar por ver que a maior parte da população não participa justamente da distribuição das nossas riquezas. Assim, a tal alegria nacional fica restrita a poucos brasileiros.
Eis que a jornalista chilena iluminou as minhas ideias com uma análise pra lá de lógica que tem tudo para ser verdadeira. Só falta o resto do povo ver isso. Só assim ele verá que só pensa que é alegre. E ver que não é alegre de verdade é a única chance deste povo um dia ser.
Terminou, enfim, o seu relato dizendo que, apesar de todas as dificuldades que ela via por aqui, ainda gostaria de cá viver. Isso me deu então uma certeza: aqui pode não ser de verdade o mais alegre dos mundos, mas no Chile deve ser pior.
(*) Escritor e contador de histórias e estórias