Eu tinha mais ou menos cinco anos e me lembro do ritual de todas as noites em que eu recostava a cabeça sobre a perna do meu pai, que, sentado de frente para a televisão, me afagava os cabelos até que eu dormisse. Não sem antes ver o fim dos episódios de Bonanza ou de Combate. Tudo em preto e branco.
A violência era óbvia, afinal, a morte era parte do elenco. Só que, ali, o mal nunca vencia.
nos questionamos a respeito de quando e como veremos ao menos a diminuição da violência no mundo. Não há resposta. Talvez a melhor maneira de se encontrar uma seja tentar identificar a sua origem ou os fatores que mais colaboram para o seu crescimento.
Mas há algo ainda mais alarmante que o crescimento do crime. É o fato de que a violência vende. E vende muito. Ao lado do sexo, ela é, disparado, o que mais atrai a atenção da grande massa na tela de uma TV. Muito mais do que política ou economia, história ou gastronomia, ela é a soberana na audiência, o que acaba criando um mortal círculo vicioso que envenena a humanidade. Quanto mais violência se vê, mais se tem. Assim, se a violência é tão boa vendedora, é nela que as empresas investem mais.
Viver da violência também é uma forma de violência.
Se emissoras e pessoas se sustentam na crescente onda de fúria, explorando até o bagaço os casos mais bizarros que conseguem encontrar e a lei não as pode punir, seria ótimo se nós pudéssemos fazer a justiça moral, não lhes dando o oxigênio que as mantêm vivas: audiência.
Âncoras de peso se especializaram no sensacionalismo e na exploração do mundo-cão, deixando a alma jornalística relegada a um plano inferior. Sem violência, eles não existem.
Pais e filhos se afastaram uns dos outros. A hostilidade gosta disso.
Os videogames são excelentes babás. Encarregam-se de manter quietas as crianças o dia todo – e à noite, se ninguém as puser para dormir. Porém, eles as contaminam com brutalidade interativa. Embora só se vá perceber muito tempo depois, o custo disso poderá revelar-se abusivamente alto.
A violência é sistematicamente inoculada nas nossas veias através da maioria dos programas de TV. Novelas, filmes, noticiários e jogos eletrônicos são eficientes mensageiros de uma infindável gama de técnicas de matar, de dar golpes milionários, de enfrentamentos de todo jeito, chegando a cultuar notórios vilões, alçando-os ao status de ídolos – que o digam Fernandinho Beira Mar e o Maníaco do Parque. Embora eu seja absolutamente leigo em psicologia, atrevo-me a imaginar até que o excesso e a frequência de exposição de casos de pedofilia, por exemplo, terminam por despertá-la em alguns indivíduos.
Eu via violência na infância.
O aconchego da minha família, porém, mantinha-me em paz.