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Uberaba, 20 de julho de 2019 -

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Ilcéa Borba Marquez

Antropofagia 2 – Um encontro entre a psicanálise e a história do Brasil

Os Índios do Brasil comiam carne humana e os Jesuítas combateram esse costume, desde a sua chegada, apoiados na compreensão de que o homem é o fim sensível das coisas: comê-lo era fazer dele um meio. Sem tentar uma compreensão religiosa ritualística ou econômica da antropofagia entre os indígenas, vamos nos ater ao fato: ela era comum aos grupos habitantes do Brasil a ponto de Métraux – La Religion des Tupinamba – dizer que os índios “a cada 20 ou 30 léguas, comem-se uns a outros”. 

Neste momento, interessa-me a descrição de uma cena antropofágica onde seguirei a feita por Fernão Cardim, assinalando que Anchieta assistiu em Iperoig a um desses espetáculos, em que a vítima foi o escravo do seu companheiro: “os Índios, como lobos, puxavam por ele com grande fúria, finalmente o levaram fora e lhe quebraram a cabeça, e junto com ele mataram outro seu contrário, os quais logo despedaçaram com grandíssimo regozijo, máximo das mulheres, as quais andavam cantando e bailando, umas lhe espetavam com paus agudos os membros cortados, outras untavam as mãos com a gordura deles e andavam untando as caras e bocas às outras, e tal havia que colhia o sangue com as mãos e o lambia, espetáculo abominável de maneira que tiveram uma boa carniçaria com que se fartar”.

A cena relatada surpreende-nos pelo inquestionável caráter prazeroso vivido por todos, mesmo que nos enoje. Para eles, a ocasião era vivida como um lauto banquete revigorante e extasiante, onde não faltavam cantos, danças e alegria, e que podemos mesmo reconhecer como uma grande festa nacional. Vale lembrar que as crianças são as vítimas preferidas, pela qualidade de seu corpo jovem – carne tenra e macia. Um costume tão agradavelmente assimilado não seria abandonado apenas pela influência dos jesuítas; foi necessária uma proibição legal, expedida fortemente por Mem de Sá, apoiado na “pena de morte” aos que a transgredissem. O governador deu a ordem de tal maneira que o canibalismo deixou de ser público e passou a ser vivenciado apenas nas aldeias mais distantes das Casas da Companhia ou do Governo.

Freud recorre ao canibalismo primitivo para compreender a passagem humana do patriarcado à fraternidade, uma vez que os filhos unidos se rebelaram ao pai enquanto o único com direito a todas as fêmeas do grupo e autoridade maior, à qual todos deviam obediência. Após o assassinato desta figura de poder absoluto, todos os presentes ingeriram da carne e do sangue do abatido, distribuindo assim o pecado e a culpa, donde retiramos o princípio da sociedade humana atual no pecado e na culpa compartilhada. 

(*) Psicóloga e psicanalista
e-mail:
ilceaborba@gmail.com

 

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