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Uberaba, 17 de julho de 2019 -

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Marli Martins de Assis

A Democracia ou a sociedade sem pai e a ridicularização do político

Em estudos sobre a estrutura do cotidiano, a filosofa Agnes Heller retrata que “a vida cotidiana é a vida do homem inteiro”. Com isso, entende-se que os sujeitos participam na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade e de sua personalidade. Nela, colocam-se em funcionamento os seus sentidos; suas capacidades intelectuais; suas habilidades manipulativas e de submissão; seus sentimentos, paixões, ideias e ideologias. Nela, os sujeitos podem vivenciar a liberdade de seus atos; entretanto, o que se evidencia é uma supervalorização do que está posto, um despojar do poder de decisão, um aprisionamento aos contextos e às repetições institucionalizadas. Esse é o formato do contexto político, e, recorrendo a Karl Popper, impossível não pensarmos que as “as prisões são os contextos”.

Ao introduzir a noção de “ridículo político” no debate sobre estética e política, Marcia Tiburi propõe que pensemos sobre quão grave é o hábito de não tratar com seriedade as coisas políticas, uma vez que a consequência mais grave é o comprometimento do sentido de democracia.

A ridicularização da política e, por sua via, do político, compõe o cenário mundial e as redes midiáticas. Os sujeitos são cooptados por uma aparente proposta de riso. Gestos espontâneos, ou mobilizados inconscientemente, demarcados pelo ridículo, passam a compor cenas do social, em formas de pensar e fazer escolhas.

Na mesma perspectiva de compreensão, entende-se que o “ridículo político” não está posto apenas para fazer rir, mas para que, em sua encenação, os sujeitos possam se esconder de suas angústias e mascarar seus afetos.

Representa uma tática de exercício de poder para perpetuar a ignorância ao político. Substitui-se a crítica pela espetacularização.

Do destacado, infere-se uma forma de lidar com os “excessos” que promovem angústias. Ideologias substituem ideias e ilusões substituem pensamentos. Na impossibilidade de uma resposta adequada aos mecanismos psíquicos, os sujeitos são conduzidos aos exageros da exteriorização, cuja performance maior é a violência e/ou a submissão às estratificações do poder. Entende-se que nessas invariantes estão demarcados os maiores problemas sociopolíticos da atualidade. Terreno fértil para o “mal-estar político” e para a “precarização estética na forma de se fazer política” (e não menos, na forma de se envolver com a política e pensar o político). O riso assume o lugar da descarga do insuportável no plano da subjetividade e, na identificação com o ridículo, uma possível “cegueira histérica” ocupa o lugar que deveria ser o do sofrimento e do desamparo (espaços que possibilitariam a simbolização e o desenvolvimento do pensamento crítico no cenário político).

Assim caminha a sociedade órfã e desamparada. Ausência de figura paterna, ou mais primitivamente em seu desenvolvimento, ausência da figura materna? 

(*) Psicóloga e mediadora de conflitos

 

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