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Uberaba, 19 de julho de 2019 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

O calor e as notícias do jornal

O ventilador gira no teto faz tempo, pois o calor começa bem cedo. Não faz muito barulho, não me incomoda, mas olho pra ele e me pergunto: qual de nós dois está girando? Que besteira! Eu não estou em movimento, estou parado, sentado numa poltrona, lendo o jornal. Na verdade, as notícias me deixam instável, inseguro. O país vai entrar em guerra? A miséria vai piorar? A censura vai inviabilizar a criatividade? Estouvados diretores de escolas vão obrigar os meninos a cortarem o cabelo como nos anos 1950?
 
Levanto-me e inverto a rotação do ventilador. Como foi feito meio rápido, as pás quase piraram. Fez um barulho estranho, mas logo elas atingiram a velocidade de cruzeiro e seguem seu caminho em torno do eixo, sem sair do lugar. Ainda bem! Já imaginaram um ventilador sair voando desembestado por aí afora, feito um drone assassino, incontrolável? Prefiro não pensar. Eu olho pra cima e reflito sobre certas coisas que funcionam bem e não devem ser mudadas. O ventilador, por exemplo. Pode-se aperfeiçoar o mecanismo, dar mais segurança, ligar e desligar por controle remoto, tantas modernidades... Mas o ventilador ventila e está bom assim. Sem conservadorismo, não é preciso reinventar a roda. A comparação pode parecer absurda, mas penso na democracia. Devemos desprezá-la se apresentou algum defeito? Ou basta melhorar suas engrenagens? Tá, democracia não se conserta numa oficina mecânica, a política não é máquina de cortar grama, pode funcionar a partir de mecanismos complicados, mas é empreendimento humano, depende dos indivíduos. A política não é organismo como bicho, planta ou vírus, por isso, não adoece, não carece de remédios, senão de debates, de estudos.
 
Ventilador ou exaustor? Vento pra baixo ou pra cima? Não sei se presto atenção no ventilador ou nas notícias do jornal. Não gosto de aparelhos de ar-condicionado. Prefiro o vento natural, orgânico. Vento artificial atrapalha o raciocínio. Meu medo é misturar as notícias, alhos com bugalhos. É que os tempos estão esquisitos, a realidade anda turva. Parece que houve um retrocesso, deve ter sido o exaustor que puxou o vento pra cima e tudo voou desconjuntado, desconcertado, louco.
 
Volto para a posição ventilar e as folhas do jornal se espalham. O caderno de política se mistura com o caderno de entretenimentos e o da previsão do tempo. A programação de cinema se mistura com o obituário. Tomara que chova logo e esfrie o tempo e os ânimos. Dar um chute na literatura não é bom. Gol contra!
 
Ao juntar as páginas, percebo que a corrupção virou espetáculo midiático e as artes correm sério risco de ir para o lixo. O vento conspira a favor da deselegância, da brutalidade e da ignorância. O que fazer com o calor? Melhor sair, respirar ar fresco, conversar com amigos, dar uma caminhada. As notícias hão de ser melhores amanhã!
 
Renato Muniz B. Carvalho
 
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