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Uberaba, 19 de julho de 2019 -

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Ricardo Cavalcante Motta

Assim é a lei

Estava escrito sob o vidro da mesa daquele experiente advogado: "Basta um segundo para se fazer uma denúncia, mas aquele que a recebe pode levar a vida inteira para esquecê-la. (Confúcio)". Numa ocasião, o acusado defendido por ele foi denunciado junto com outros réus. Crime grave. Mas jurava que não participou do crime. Contudo, quando abordados os demais acusados, estava, pelo acaso, próximo deles numa praça de alimentação da cidade. A denúncia foi ofertada incluindo esse cliente dentre os agentes do crime ao argumento de que "in dubio pro societate", na dúvida pelo interesse da sociedade. Os jornais noticiaram o fato com a foto dele estampada como coautor do crime. Ficou preso. Humilhado, jurava inocência. Na audiência de instrução, o juiz, buscando a verdade real, indagou da vítima quanto ao reconhecimento dos autores do crime. Havia um reconhecimento genérico, até então. A vítima confirmou o reconhecimento de três dos quatro denunciados, excluindo, com segurança, aquele denunciado que desde o princípio jurava inocência. Foi absolvido. "Justiça feita". Após a consolidação do veredicto, o juiz foi pensar na próxima sentença. O promotor elaborar outra acusação. O defensor, contente e aliviado, sentia-se lisonjeado pelo triunfo do resultado. Os policiais da apuração nem mais se ocupavam de lembrar o fato, estavam atarefados com outras investigações. Mas o réu, aquele injustamente acusado, ao ser questionado pelo defensor se estava contente pelo resultado, respondeu que sim, mas em parte. "A sentença estabeleceu a verdade quanto a minha inocência, mas o processo foi cruel, desgastante, desde a retumbante publicidade da acusação à tímida e pálida referência a minha absolvição, fora o tempo de prisão. Nada mais sanava as feridas pelos olhares de nojo e repugnância que recebi em meu meio. As duras imputações pelas palavras da denúncia jamais sairão de meu coração. Por mais que a justiça do direito tenha sido feita, não foi feita a justiça ética e moral para meu ego. Pior foi a desconfiança dos próximos, até a definição formal. A dor de pais, filhos...  A facada da norma em meu peito deixou chagas que jamais sairão da minha emoção." Respondeu-lhe então, algo desapontado, o nobre causídico.  "Entendo, mas assim é a lei!"

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