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Uberaba, 17 de julho de 2019 -

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Ricardo Cavalcante Motta

Fulano de tal

A alma se sobrepõe ao corpo como a arte se sobrepõe ao homem. Era sim um homem importante. Sabia disso, afinal esforçou-se para alcançar o seu status social de renome. Para tanto, até esmagava obstáculos. Tinha efetiva influência política. Dotado de fortuna, era bem festejado. Aliás, a sociedade homenageia mais os ricos. Vaidoso, gostava muito de si, mas ocultava esse perfil. Notava cada gesto de indiferença ou admiração. Tinha consequência. Sofria por ser finito. Queria muito ser perenemente relembrado. Ficar para a posteridade. Resolveu, àquele tempo antigo, ser retratado em tela a óleo pelo mais consagrado pintor. Sem remorso, pagou muito caro para ter seu rosto assim registrado. Estava seguro de seus objetivos. A tela foi extraordinariamente elaborada. O artista não admirava a figura, mas amava a arte e se esmerou em tintas, cores, luzes e dimensões de espaços, deixando mensagens ocultas. Uma obra prima! Passado o tempo, morreram. Restou a arte da tela. Anos e anos adiante foi exposta em prestigiado museu de artes. Ao lado do quadro, muito admirado, havia o histórico do artista e explicações sobre a arte. Naquela encantadora visita a criança observava orientada pelo pai. Depois de ler o texto, perguntou ao pai de quem era o rosto pintado. Secamente, respondeu o pai. Não sei. Não importa. Um fulano de Tal qualquer, provavelmente vaidoso, pelo jeito. É assim. Fulanos de Tal é o que somos, num mundo de milhares e milhares de anos em que somente a arte sobrevive desde as paredes pré-históricas, sem nome de artistas. Já a alma sobrevive pela humanidade, sob a regência do amor. Individualmente, e fisicamente, não tardará o dia em que nada mais seremos do que um mero Fulano de Tal. Cuidemos da alma.

(*) Juiz de Direito

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