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Uberaba, 20 de maio de 2019 -

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Cláudia Feres Garcia

Sherazade e a sabedoria de ouvir

A estória de Sherazade me fascina. A sabedoria dos contos certos, capaz de desfazer amarguras, a salvou por mil e uma noites e mais.  Mas o que mais me seduz na estória é o ‘saber ouvir’ do rei Shariar, pois se permitiu, corajosamente, se encantar. Saber ouvir é uma virtude que poucos têm. Certa vez tive a oportunidade de conhecer pajés tupinambás. No meio do palestrar de um deles, uma pessoa da plateia, vaidosamente o interrompeu sem aguardar que ele terminasse a frase. Esbravejando disse ao pajé que não participara daquele acontecimento daquela forma que fora mencionado. Sabiamente o índio esperou ele terminar o versar e disse essas palavras: ‘Você precisa aprender sobre o que de mais precioso precisamos saber: ouvir, silenciar, pensar, falar, silenciar e pensar outra vez. Por falar apenas e pouco pensar, cometemos erros; e por ouvir tanto menos do que pensam é irreversível o que perdemos.’ Enquanto as pessoas falam, as interrompemos, muitas vezes. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as ‘bolhas de sabão do outro voem livre’. Saber ouvir é um ato de amor, de cuidado com os sentimentos do outro. E aí bola vai, bola vem, cresce o respeito ao ser humano. Ninguém ganha para que os dois ganhem. Saber ouvir é uma arte, é poema sem rimas e cheio de poesia, é ter a sabedoria do sultão que se permitiu, permitindo que Sherazade ficasse no palácio por mil e uma noites e mais, contando suas histórias.
 

(*) Professora universitária e agente literária

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