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Uberaba, 20 de maio de 2019 -

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Vânia Maria Resende

Gininha e o sono do Jabuti

Conheci a casa onde a Gininha morava com Sílvio, o seu marido, e com um jabuti. Conheci alguns dos filhos do casal, herdeiros da gentileza dos pais. Sílvio e Gininha: dois mineiros de almas gêmeas na doçura, na calma, na bondade. Pelo quintal da casa passeavam gatos, que não se rivalizavam com os passarinhos, que descansavam nos muros e cantavam nas folhagens. A rotina do Jabuti se alternava entre dormir uma temporada e ficar acordado outra. Acordado, seu alimento era, entre outras coisas, minhoquinhas, e Gininha contribuía com esse cardápio, providenciando algumas pra ele. Estive umas vezes nessa casa, típica do interior, porém com algo a mais na harmonia entre pessoas, bichos e plantas, e no acolhimento. Nela, vicejavam reminiscências da vida no paraíso. Até a comida da Gininha era sem pecado. Não pelo luxo do prato, mas pela gratidão que era impossível não sentir, ao se assentar à mesa com ela e o Sílvio. Os dois se ofendiam com quem os visitasse e preferisse o restaurante a compartilhar a refeição com eles.

O que mais me tocava na figura da Gininha – miudinha, franzina, de mais de 70 anos, esperta na lida doméstica – era ela não ter perdido a pureza genuína, que lhe permitia se entender com os animais, sem nenhuma interdição da razão adulta. Ela os acolhia como filhos, e se entendia até com os menos familiares. Basta dizer que ela era sentinela do sono do Jabuti (nome próprio, assim mesmo). Quando ele escolhia um lugar para a hibernação de um ou dois meses, ela o cobria com folhas, como se fossem um cobertor a proteger uma criança indefesa. Coberto, livre de ameaças, o Jabuti poderia dormir tranquilo e a Gininha também.

Como os jabutis podem chegar até os 100 anos, normalmente vivem bem mais do que os seres humanos que os adotam. O que soube da Gininha e do Jabuti é até o que me contaram, e está no que reconto. Não vendo mais a Gininha no quintal, ele perambulava por ali, com os olhos úmidos, à procura do zelo materno. Na falta dela, a casa ficou mesmo vazia, para sempre. Um pouco depois, o Sílvio, por sua vez, sem a companheira, deixou a casa, para morar com uma filha. Como há outras formas, até invisíveis, de habitar os espaços, os afetos, as pessoas, reencontro Gininha no jeito doce do seu filho Joaquim. Em Uberaba, ele é um psicólogo querido pelos seus pacientes e amigos. Calmo, pequeno, como a mãe; delicado como ela também, o que deve influir na qualidade da sua escuta no trabalho clínico. Essa seria uma herança do saber cuidar da Gininha, como fazia com o jabuti. Transfundida na sensibilidade do terapeuta, no atendimento terapêutico, tendo o calor humano como forte aliado na relação com os conflitos e as carências do outro.

De Gininha, posso dizer que era um anjo na terra. Depois que bateu asas, passou a habitar outros lugares, até mesmo o das histórias. Voou para o coração e a memória de quem a conheceu, pousando aí com a sua leveza. Às vezes penso: ela aprendeu a ser leve com os passarinhos que passavam pelo seu quintal? Ou seriam eles que, pegando migalhas nas mãos de Angininha, ficaram mais divinos e suaves no canto? E, com trinados etéreos, a teriam levado no bico, para distâncias além? 

(*) Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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