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Uberaba, 23 de maio de 2019 -

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Vânia Maria Resende

Venda da biblioteca da Nelly Novaes Coelho ao sebo

Quantos livros a Nelly não comprou, ganhou, restaurou, consultou, leu, e dispôs com amor na sua biblioteca? Muitos com comentários escritos à mão e dedicatórias memoráveis. Coleções enciclopédicas; obras raras; autores diversos, clássicos, modernos, de nacionalidades distintas, falando de temas universais, tempos e lugares distantes, frequentados por ela. Nesse universo, ela refletiu, sonhou, imaginou, criou, descobriu o novo, revisitou tradições; chorou e riu sozinha, teve íntimas interlocuções, no silêncio da palavra escrita. Para quem ama os livros, eles são companheiros, cúmplices, não utensílio descartável. Por meio deles, Nelly explorou o conhecimento e o mundo, na experiência existencial fantástica, humanística. Doar o seu acervo a uma instituição de pesquisa seria digno da intelectual-referência que ela foi e é na área de literatura brasileira e infantil e juvenil. Os livros que a pesquisadora e crítica literária escreveu documentam sua visão analítica e filosófica arguta. Já nos anos 60, ela deu luz a professores que saíam dos cursos de Letras despreparados para a leitura literária no Ensino Fundamental.

Tive o privilégio de encontrar Nelly a partir dos anos 80, no decorrer do grande desenvolvimento da Literatura Infantil no Brasil. Em função disso ela veio a Uberaba para duas palestras; pela Livraria Menino Maluquinho e pelo Proler. Elegante e cordial, sempre pronta a colaborar. Em 2000, escreveu artigo, dos melhores, para o jornal Dimensão, da Secretaria de Educação de Uberaba, especial sobre Ziraldo. Ela integrou a banca do meu doutorado, na USP, em 2004; nessa oportunidade, ela fez uma exposição densa, que foi adaptada como prefácio do meu livro de 2013. Passei um tempo sem notícias da Nelly, e comecei a me preocupar, sem conseguir localizá-la.

Em dezembro de 2017, matérias publicadas por José Nêumane e Afonso Borges questionaram o mistério em torno da sua morte (só noticiada um mês depois) e da situação a que foi submetida – isolada em uma clínica, com visitas proibidas, interditada judicialmente. Que ironia dessas condições com a profissional e pessoa que se guiou por princípios humanitários e sempre os defendeu! Que injustiça com sua história e seus bens culturais, patrimônio que deveria ter sido preservado, em favor da memória e da cultura nacional! Se a sua biblioteca (espelho do seu rosto e da sua alma) fosse resguardada, seus livros nos falariam de suas utopias; seu modo generoso de ser e se expressar; suas preferências, afinidades, fontes das suas pesquisas; sua personalidade, que reuniu aquele acervo, não por acaso. Isso não será mais possível...

O escritor Ronaldo Cagiano, no artigo “A segunda morte de Nelly Novaes Coelho” (www.jornalopcao.com.br), fala da lucidez da educadora e escritora, até quando se soube dela, antes do seu estranho isolamento. Conta também que encontrou no Sebo do Messias, em São Paulo, por volta de julho de 2016, vários livros autografados para ela, inclusive, um de sua própria autoria. Foi quando percebeu que “ela tinha sido ‘enterrada viva’ em vida e seu acervo vendido a alfarrabistas (certamente sem seu consentimento [...]), atitude deplorável, que consiste verdadeiramente num crime de lesa-literatura”. Como não se indignar com o desrespeito aos 95 anos de Nelly, ao seu compromisso longevo com os livros, a cultura, a educação; à sua velhice, e ao seu fim, que não teve ninguém para contar direito? Heresia a venda da sua biblioteca, ato de menosprezo ao seu valor imaterial, não pecuniário. Por ignorância, ambição, desinteresse? Não há razão que justifique a desintegração de um bem, que é documento da inteligência individual da Nelly, e também do país. 

(*) Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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