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Uberaba, 21 de julho de 2019 -

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Padre Prata

A civilização do medo

Sempre tivemos medo de alguma coisa. Desde crianças. Nossos pais, de um modo geral, usavam do medo para nos educar. Contavam-nos estórias de mulas sem cabeça, de lobisomem, de assombrações, de almas penadas, do capeta. Além disso, tínhamos medo de nossos avós, que eram excessivamente severos e nunca nos faziam nenhum carinho. E o que era pior, usavam do medo de Deus para que nos comportássemos com as regras deles. A frase “Deus te castiga” era o melhor recurso que possuíam. Foram eles os responsáveis para formarmos dentro de nós a figura de um Deus castigador, que, por qualquer pecadinho, nos mandava para o meio do inferno.  A religião nos enchia a alma de remorsos e medos. Ainda hoje há pais que usam esses medos blasfêmicos de que Deus nos castiga. Sabemos que não é Ele que nos castiga, somos nós que livremente escolhemos os piores caminhos. 
Se o medo caracterizou nossa infância, a realidade hoje é muito pior. Nossos medos continuam muito mais intensos e neurotizantes. Temos medo de tudo, dos castigos divinos, da morte, do câncer, do H. pylori, do colesterol, do Aedes aegypti, do Alzheimer, das doenças em geral. Não sabemos mais o que comprar nos supermercados, tudo lá está entupido de aditivos químicos. Temos medos dos remédios, que nos curam por um lado e nos arrebentam por outro. Temos medo dos assaltantes. Cercamos nossas casas de todo tipo de defesa: entrada televisionada, chaves tetra, rede elétrica, canzarrões assustadores, grades de todos os tipos.
Lógico que todo esse mundo nos afeta psicologicamente. Vivemos assustados. Tensos. À noite, o barulho de uma moto nos deixa de sobreaviso. Não andamos sozinhos. Cada garoto malvestido é olhado com suspeita. E assim lá se vai a nossa paz.
Tudo isto me faz lembrar de um eletricista aqui em Uberaba. Gabava-se de ser comunista. Desancava o governo, o Exército, os latifundiários, os imperialistas, essa “caterva” de exploradores do povo. Enquanto emendava um fio, ia repetindo: “A salvação está no Comunismo, e não vai demorar”.
Acontece que veio o Golpe Militar de 1964. Nosso eletricista foi pego pela Junta Militar. No interrogatório, perguntaram-lhe: “O senhor é comunista?” E ele, com toda coragem e convicção, respondeu: “Não senhor, eu sou é eletricista”. 
 
Padre Prata
 
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