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Uberaba, 17 de julho de 2019 -

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Luiz Cláudio dos Reis Campos

Niemeyer, filosofia, sociologia, Brasília

É seguro afirmar que Niemeyer teve contato com a estética de Kant e dela sorveu “conceitos” que colaboraram em sua formação profissional, dando-lhe atributos críticos das sensações de espaço e tempo. O belo se exalta e atrai contemplação para sua arte. E é bem lógico imaginar que não se alicerçou apenas em Kant, porque a lógica cartesiana deve lhe ter servido harmonia, simetria e equilíbrio.

Se Descartes proclamou: “Penso, logo existo”, o pensamento é a materialização de nossa existência. Qualquer atividade para que seja bem realizada necessita de aprendizado, dedicação, conhecimento. Da mesma forma é com o pensamento. Ele é uma atividade vital. O coração, por exemplo, que está constantemente a nos fornecer a irrigação necessária à nossa sobrevivência é, na maioria das vezes, pouco lembrado, quase imperceptível, um músculo estriado de contrações involuntárias. Portanto vale valorizar o que temos de mais precioso.

Por analogia é preciso pensar no pensamento com a magnitude de sua importância, colaborar para que ele seja cada vez mais aprimorado e que esteja sempre a serviço da humanidade, porque é ele que nos distingue e nos dá o batismo da racionalidade. Pérola das pérolas, guardadas em recônditas sinapses que nos ligam ao mundo externo para estabelecermos nossa presença inteligível e decodificada. A mais singela e a mais complexa manifestação humana vem do ato de pensar. A higidez física se aprimora através do exercício, na tonificação muscular. Assim é também com o pensamento.

A academia do cérebro tem como seus aparelhos o conhecimento acumulado desde os nossos primeiros ancestrais. Volto a Niemeyer e me vem Nietzsche, Schopenhauer, Hegel, Proust, Voltaire, Sartre, Camus, entre tantos, e também Weber que tratou cientificamente da organização, funcionamento das sociedades e seu comportamento social, onde a sociologia está destacadamente presente no grande “escultor” de Brasília que, com Lúcio Costa, complementa a majestosa concepção da capital federal, pura combinação de arte, filosofia e sociologia, edificada com a frieza do concreto que ganhou alma nas mãos do arquiteto.

Não consigo admitir que, sem esse horizonte vasto do saber, da inquietante curiosidade, das ferramentas da filosofia, Niemeyer faria tantas maravilhas estéticas e funcionais. Esta simples frase: “O que seria do verde se não fosse o amarelo” encerra muito mais do que o que aparentemente quer dizer. Não há e nem haverá vã filosofia. Já passado dos 90 anos, Niemeyer participava de encontros semanais sobre filosofia, astronomia, história e literatura.

Luiz Cláudio dos Reis Campos é engenheiro civil

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