JM Online

Jornal da Manhã 46 anos

Uberaba, 22 de março de 2019 -

BUSCAR EM TODAS AS SEÇÕES BUSCAR
Buscar

O inventor que transforma garrafas pet em luz

Jornal da Manhã traz a história do ex-agricultor Alfredo Moser

- Por Thassiana Macedo Última atualização: 27/07/2014 - 16:11:04.

Na entrevista de hoje, o Jornal da Manhã traz a história do ex-agricultor Alfredo Moser. Apelidado de “Thomas Edison dos dias de hoje”, com a simplicidade que lhe é muito peculiar, o mecânico e borracheiro colocou em prática uma ideia que passou a ser chamada de “garrafas de luz” ou “Bottles of Light”, “lâmpada de Moser” e até mesmo de “luz engarrafada”.

De modo prático, ele utilizou garrafas pet com uma solução de água com cloro ou água sanitária que, inseridas no telhado, refletem a luz do sol, iluminando qualquer ambiente de modo amplo. A notícia já se espalhou por todo o mundo por meio das inúmeras entrevistas que Alfredo Moser deu para jornais no Brasil, mas também dos Estados Unidos, Alemanha, Japão e Coreia do Sul, por exemplo, e que estão devidamente guardadas em recortes ou páginas impressas da internet em pelo menos cinco pastas.

O resultado disso foi que a criação de Moser tem mudado a vida de muitos brasileiros e principalmente daquelas pessoas que moram em condições precárias e sem acesso à energia elétrica, como é o caso de mais de 50 países da África, México, Colômbia e Índia, e também em mais de 140 mil casas localizadas em favelas nas Filipinas, conforme levantamento realizado em 2013. Além de Uberaba, a lâmpada funciona em Santa Catarina, instalada por um primo, no Núcleo de Educação Ambiental, e no Parque Chico Mendes em Osasco (SP), mas já chegou a Brasília e também ao Piauí.

O tema também inspirou projeto de pesquisa na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devido à relevância social para famílias de baixa renda, já que a economia com energia é de aproximadamente 30%. 

Jornal da Manhã – O senhor é catarinense de onde?
Alfredo Moser –
Sou de Itajaí, do distrito de Canhanduba. Lá eu trabalhava na lavoura. Derrubava madeira e capinava para plantar arroz, milho, cana, abacaxi, batata-doce e laranja. Ficava atento ao tempo porque dependia dele para a lavoura. Quando pequeno, eu estudava e trabalhava. Ia para o colégio, estudava até 11h e depois nem ia para casa, ia é terminar de puxar os bois para arar a terra à tarde. Em casa, podia estudar só à noite, à luz de querosene, mas o meu pai sempre falava que ia estragar as vistas, então estudo mesmo eu quase não tive. 

JM – Depois da lavoura, o senhor foi trabalhar com quê?
Alfredo Moser –
Lá em Santa Catarina existia uma meta. O jovem ia para o Exército, ou ficava trabalhando com o pai, ou ganhava a liberdade para ir para fora. Então, depois que completei 18 anos, falei com meu pai e ele ajeitou um trabalho na oficina de um amigo, onde ele tinha deixado o jipe dele para arrumar. Fui trabalhar de mecânico, porque o jipe dele estava há uns seis meses parado, sem arrumar. Trabalhei um ano de graça, sem ganhar nada. Chegava a andar uns oito quilômetros para ir e mais oito para voltar de bicicleta. 

JM – Mas esse aprendizado foi importante?
Alfredo Moser –
Ah, sim, foi muito importante. Minha vontade sempre foi aprender, porque lá em casa eu fazia de tudo. Consertava carroça, bicicleta e várias outras coisas que minha mãe pedia. Mexia para ver como funcionava até consertar. Ensinei os bois a entrar no risco que abria na lavoura e eles trabalhavam o dia todo sem ninguém puxar na frente. Era importante, porque assim o trabalho era feito sem ter ninguém para puxar e era o que eu gostava, procurava sempre aprender e fazer o melhor.  

JM – O senhor trabalhou como mecânico por quanto tempo?
Alfredo Moser –
Lá em Santa Catarina fiquei por dois anos, trabalhando em três ou quatro oficinas. Foi quando meu tio, que era padre, me disse que lá em Brasília estavam precisando de mecânico, porque estava em falta. Há muito tempo eu já estava doido para servir o Exército e assim conseguir ir para Brasília, mas como fui reprovado por ter muita gente, aceitei o convite. Fui com a cara e a coragem, mas lá sofri mais do que tudo, porque era difícil. Trabalhei nove meses na oficina que meu tio indicou. Como eu ficava no alojamento do Colégio Dom Bosco, meu tio disse que eu precisava comprar um presente para o diretor da instituição. Pensei... Nossa Senhora, o primeiro salariozinho que estou recebendo e lá vai tudo para o padre, e nem travesseiro eu tinha para dormir. Colocava minha roupa de mecânico para servir de travesseiro. Pedi aumento, mas não vinha. Então, fui para outra firma, onde um colega estava me chamando, na Brasauto. Lá fiquei um ano e pouco, quando em 1975 outros colegas me chamaram para trabalhar na empresa de telecomunicações de Brasília. Trabalhei uns quatro ou cinco anos lá. 

JM – Como foi que surgiu a ideia da lâmpada?
Alfredo Moser –
Então... Lá ouvíamos falar muito dos aviões que caíam na Amazônia e falava com meus colegas da preocupação sobre como avisariam o resgate sem material de sinalização, ou até mesmo um fósforo para acender uma fogueira. Foi então que meu chefe comentou que se tivessem uma garrafa, era só encher de água e colocar no sol, beirando o capim, que logo ele pegaria fogo. Para demonstrar a lente improvisada, ele pediu que eu pegasse uma lâmpada incandescente, tirasse o soquete e enchesse de água para colocar no sol. E me explicou que, com a lupa, o capim pega fogo mais rápido. Com a lâmpada incandescente demorou mais um pouco, mas também pegou. E essa ideia ficou na minha cabeça. 

JM – Por que decidiu vir para Uberaba?
Alfredo Moser –
Na segunda oficina em que trabalhei em Brasília eu tinha um colega que sempre dizia que tinha uma cunhada, a Carmelinda, e que seria bom eu conhecer. Ele queria que eu viesse a Uberaba para conhecê-la, mas como eu viria, se nem dinheiro tinha? [risos] Depois de um tempo ela apareceu por lá. Nos conhecemos e foi quando tudo começou. Passei para a empresa de telecomunicações e decidimos nos casar. No dia do casamento, nem dinheiro para vir a Uberaba para casar eu tinha, mas eu tinha um carro e meus colegas resolveram fazer uma vaquinha para que eu colocasse gasolina no meu Opala, que eu tive depois do Fuscão, apelidado de Cacilda [risos]. Casei-me e voltei para continuar trabalhando em Brasília. Foi quando o pai da minha esposa faleceu que resolvemos vir para Uberaba, porque ela tinha uma irmã aqui. Tive receio de vir, porque não conhecia ninguém, mas era mecânico e logo correria atrás de serviço. Fiz uma ficha na Distrive, mas arrumei um galpãozinho, onde montei minha oficina, comprei equipamentos e peças e toquei a vida. 

JM – Conte como foi seu encontro com Chico Xavier...
Alfredo Moser –
Com um dinheiro que conseguimos, compramos uma casinha aqui, no Parque das Américas, e depois de trabalhar um tempo juntamos um dinheiro e compramos um terreno na avenida João XXIII, onde, com muito custo, construímos o galpão onde hoje funciona minha oficina. Um dia, à tarde, vim de bicicleta buscar uma peça para os veículos que eu arrumava e encontrei o Chico Xavier caminhando pela rua Dom Pedro. Sempre o cumprimentava, mas nunca tinha jeito de falar com ele. Foi quando resolvi parar para conversar. Cheguei e o cumprimentei, já sentindo o poder danado que ele tinha nas mãos. Foi então que uma senhora que estava com ele me apresentou como o Moser, que morava perto do centro dele. E ele disse: “Ah, eu sei onde é”. Mas ele nunca tinha ido à minha casa. Conversa vai, conversa vem, e o Chico colocou a mão na minha cabeça e disse: “Moser, sabe que você vai ter uma luz em sua vida? Só que essa luz não vai ser só sua, vai ser do povo”. Depois disse que eu teria uma luz de sinal e uma luz divina. Ao nos despedirmos, ele ainda me disse que quando falecesse, eu iria ver a luz divina. Um tempo depois que ele faleceu, eu o vi, enquanto estava deitado em minha cama, foi quando caiu uma luz em cima de mim. Nunca tinha visto uma luz tão bonita na minha vida, parecia um cristal. 

JM – E como o senhor voltou a pensar na ideia da lâmpada?
Alfredo Moser –
Foi quando veio o apagão, em 2001. Percebi que o povo realmente ia ficar sem energia em casa, Fiquei preocupado, mas como o Chico Xavier disse que eu ia ter uma luz na vida, me lembrei daquela conversa com meu chefe sobre a lâmpada com água, só que não faria com vidro. Foi então que pensei na garrafa pet, porque se a temperatura muda, o vidro quebra, mas a garrafa pet não. Então, em um domingo à tarde, fomos à casa de uma prima da minha esposa e lá vi que a luz que entrava da janela e batia em uma garrafa sobre a mesa fazia a claridade bater na parede. Nesse momento pensei que aquela era a hora, então cheguei à borracharia e lá tinha um telhado quebrado, eu quebrei um pouco mais, enfiei a garrafa pequena com água e deu claridade. No outro dia fiz o teste com uma garrafa maior, coloquei uma garrafa de dois litros, e foi onde tudo começou. Um colega meu viu e eu sugeri que ele colocasse no restaurante dele. Bastava furar a telha uns 100 milímetros, pegar uma garrafa pet de dois litros, colocar água e duas tampinhas de cloro ou água sanitária, para a água não ficar verde e ela ficar conservada para sempre. Pode ficar mil anos e não estraga. As minhas têm mais de 10 anos e estão a mesma coisa. Depois é só colocar um potinho de filme ou fita isolante para proteger a tampa branca, senão o sol a detona, encaixar a garrafa na telha e passar massa plástica em volta para fixar. Depois um colega veio de Brasília, viu as garrafas no restaurante e perguntou se eu tinha feito, e eu disse que só tinha dado uma ideia que daria certo. O jornal veio e fez reportagem, depois chamaram o João Eurípedes Sabino, que me apresentou para o Luiz Carlos Barbassa, da Cemig. Todo mundo achou interessante e foi quando a ideia começou a ser divulgada.  

JM – O que a invenção representa em termos de economia de energia?
Alfredo Moser –
Coloquei umas 10 garrafas no corredor de um supermercado que tem 1,20m por 15m, e hoje o dono não gasta nada, ou seja, tem custo zero com energia elétrica. Depois coloquei no depósito desse mesmo supermercado e aconteceu a mesma coisa. Quando o tempo fecha e o céu fica escuro, talvez até seja preciso acender a luz elétrica, mas, depois que começa a chover, a garrafa volta a iluminar bem novamente. Quanto mais escuro no interior do ambiente, mais a lâmpada ilumina. O resultado é uma iluminação equivalente a uma lâmpada com potência entre 40 e 60 watts.  

JM – Já recebeu apoio de organizações, empresas ou de algum setor do governo para a invenção?
Alfredo Moser –
Por enquanto ainda não recebi nenhum apoio. Só quem já me convidou para produzir a lâmpada foi a Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Osasco, em São Paulo. Eles pagaram a passagem e a hospedagem em hotel para que fosse fazer umas 24 lâmpadas lá. Na época deu um trabalhão para preparar as telhas, mas hoje já tem a máquina “serra copo” que faz isso com mais rapidez. Outros trabalhos que eu levei também com garrafa pet ficaram em um mostruário disponível para quem trabalha com reciclagem poder continuar o trabalho. Também já fui convidado a ir à Coreia do Sul para participar do Fórum Digital de Seul (SDF 2014, na sigla em inglês), que aconteceu no mês de maio. Foram dez dias de viagem, minha primeira internacional. Lá, as cidades são de primeiro mundo, não existe um papel de bala jogado na rua, os funcionários do hotel, todos de gravata, ficam com uma pá recolhendo folhas ou varrendo. Não há um policial na rua e mesmo assim não tem assalto. Também fui para o Rio de Janeiro, como convidado da Petrobras, durante a Conferência Rio+20. Esta foi a primeira vez que viajei de avião. Nas Filipinas, Illac Diaz [diretor executivo da Fundação MyShelter] conheceu meu trabalho pela internet. Lá eles já construíam casas com garrafas pet cheias de lama, mas as casas só tinham porta e eram escuras. Então ele gostou da lâmpada e começou a produzir por lá. Teve até o caso de uma família que conseguiu comprar todo o enxoval do bebê com o que conseguiu economizar em energia, e de um menino que disse ao pai que agora ele poderia ler e estudar em casa, já que na rua o sol era muito quente. 

JM – Depois da luz engarrafada o senhor apresentou algum outro invento?
Alfredo Moser –
Tem a ideia da vassoura, em que também aproveito materiais de reciclagem. Faço com essa fita de amarrar embalagem de piso ou caixotes. E ela funciona muito bem. Já fui até no Senai fazer a demonstração desse trabalho, mas aí me disseram que eu tinha que produzir várias vassouras. O ideal é uma indústria pegar para fabricar várias em série por dia, porque manualmente, como eu faço e vendo para um e outro, dá muito trabalho.  

JM – O invento está devidamente patenteado?
Alfredo Moser –
Já estou correndo atrás e batalhando, mas é muito complicado. A dificuldade é arrumar o dinheiro que precisa para isso. Para fazer um protótipo e apresentar, o Sebrae disse que precisamos de R$40 mil, mas não encontramos ninguém que ajude. Já pedimos apoio em tudo quanto é lugar, mandamos cartas para deputados, mas ainda não conseguimos. O problema maior nem é o dinheiro. Desenvolvi um projeto que faria com que essa lâmpada também pudesse clarear à noite, mas não encontro quem faça o protótipo com as placas solares. Já sofremos escassez de água e energia, mas o sol ainda é abundante. É como meu pai dizia, o sol nasceu para todos, é preciso apenas saber aproveitar.

Leia mais

DESENVOLVIDO POR Companhia da Mídia