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ENTREVISTA
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Thassiana Macedo - 02/02/2014

O libanês que não vive fora de Uberaba

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Na primeira entrevista de 2014, o Jornal da Manhã traz um pouco da história de Saadallah Azor Fakhouri, que, aos 77 anos, é um exemplo de comerciante bem-sucedido de Uberaba. Embora não queira se aposentar, Saadallah já pensa em diminuir o ritmo de trabalho, pois, afinal, com pouco dinheiro, em 1958, o empresário abriu a primeira Loja São Paulo e 55 anos depois ainda trabalha com afinco ao lado da mulher Raué Kanaan Fakhouri, também descendente de libaneses, que veio para o Brasil com a família aos seis anos de idade.

Filho de Azor Fakhouri e Faride Nesrralla, hoje falecidos, Saadallah tem três filhos que preferiram seguir a carreira médica. O mais velho, Saadallah Filho, especializou-se em geriatria; Amir escolheu a especialidade de reumatologia e hoje trabalha em Ribeirão Preto, enquanto o caçula Fauze atua como psiquiatra. 

Jornal da Manhã – O senhor é natural do Líbano... Por que decidiu vir para o Brasil?
Saadallah Azor Fakhouri –
Vim do Líbano, com 18 anos de idade, porque muitos parentes já tinham vindo para o Brasil, por volta de 1800 e pouco. Eles vieram para Uberaba ou Santa Juliana. Então, resolvi vir para ver esses parentes. Aproveitei para ficar por aqui e procurar oportunidade de trabalho para uma pessoa nova como eu, porque lá no Líbano era muito difícil. Chegando aqui também foi difícil, pois naquela época as dificuldades estavam por toda parte, mas havia oportunidade. Além disso, eu era muito novo e tinha vontade de descobrir coisas novas, buscava aventura, e sabia que aqui eu podia ver coisas mais interessantes do que as que tinham lá. Vim em 1955, junto com Fuad Ibraim El Armali. Ele era meu anjo da guarda, meu primo primeiro e cunhado, casado com minha irmã Georgete. Chegamos no dia 1º de abril, dia da mentira. 

JM – E como foi essa viagem?
Saadallah –
Foi uma viagem longa, pois passamos pela Itália, onde ficamos um mês em Gênova, enquanto pintavam ou faziam qualquer outra coisa com o navio. Ainda era possível ver a marca da destruição da 2ª Guerra na Itália. Nessa época, vinham do Líbano cerca de 70 pessoas e certo dia inventaram de fazer uma greve, porque todos os dias nós comíamos macarrão e outros pratos italianos, a comida não era ruim, mas eles queriam comer quibe cru, tabule, machuche... Aí resolveram ir ao Consulado fazer greve e pedir comida melhor. Lá ficamos um mês em um hotel, passeamos e conhecemos bastante coisa por lá. Era tudo tão maravilhoso que até esquecemos que o destino era o Brasil. Depois que partimos da Itália, viemos para o Rio de Janeiro, aí eu pensei: “Realmente o Brasil é aqui. Chegamos”. Ficamos pouco tempo no Rio, pois uma parte dos passageiros ia ficar por lá e então seguimos para Santos. Durante a viagem tudo parecia um passeio, sem muita preocupação... Quando vimos o porto, pensei de novo: “Meu Deus, chegamos ao Brasil! A viagem terminou e agora é hora de pensar na vida”. Pegamos o trem e fomos para São Paulo. Quando vi a cidade, fiquei impressionado com a sua grandiosidade, era uma cidade grande e bonita mesmo. No Líbano, morávamos em uma cidade pequena do interior chamada Zuerib, no estado de Akar, região norte do Líbano, então era tudo muito diferente.  

JM – Como foi a infância e a juventude no Líbano?
Saadallah –
A infância foi estudar e ajudar em casa. Somos oito irmãos, sendo cinco homens e três mulheres, mas hoje somos apenas sete, porque perdi uma irmã ainda nova. Todo mundo estudava, trabalhava e ajudava em casa, mas não existia trabalho mesmo, algo que fosse remunerado. Tínhamos umas terras lá e o que produzíamos, nós vendíamos. No verão, por exemplo, produzíamos uva, figo, juntávamos todo mundo e apanhávamos folha fresca e bem novinha de uva, tudo isso para vender no mercado, tipo uma Ceasa. Íamos de ônibus com meu pai, ficávamos até meio-dia e íamos vendendo. O que não vendia ficava para ser acertado na próxima viagem. No inverno, plantávamos hortifrútis e azeitonas verdes, e com o restante que não era vendido fazíamos azeite. Foi uma vida bem sacrificada, mas tínhamos energia para dar e vender. Então era uma vida gostosa, pois quase não tínhamos compromissos, a não ser estudar e ajudar. Meu pai era o mais novo de seus irmãos, sendo que os que vieram para o Brasil nem haviam chegado a conhecê-lo. Só foram se conhecer aqui no Brasil. 

JM – E como foi que o senhor veio parar em Uberaba?
Saadallah –
Depois que chegamos, ficamos um tempo em São Paulo, então vim para Uberaba visitar os parentes e depois fui para Santa Juliana. Lá vivia meu primo Merched, ele cuidava de mim e achava que era o responsável por mim e, de certa forma, era mesmo. Eu morava na casa dele, e qualquer coisa que acontecia ele falava: “Mas se acontecer qualquer coisa com você, o que vou falar para meu tio?”. Mas nessa época nem o pai dele conhecia meu pai, mas o Merched tinha uma preocupação comigo que era fora de série. Em Santa Juliana, Merched, meu primo, que também foi anjo da guarda, disse que uma pessoa devia a ele 24 contos, não me lembro a moeda da época. Então, ele disse: “Ele tem um armazém secos e molhados, e vou te levar para trabalhar lá”. Eu achei ótimo. Fui o primeiro dia e gostei, mas eles não acreditavam muito, porque eu era muito novo. Depois de uns dez dias, me perguntou se eu estava trabalhando bem, se estava gostando, e eu disse que sim, sem problemas. Lá meu trabalho era vender, mandar o dinheiro para a família, fazer a lista do que o armazém precisava para meu primo enviar a mercadoria. Depois de dois anos e pouco não quis mais ficar. Acertaram 120 contos comigo e fui para Belo Horizonte, onde também tinha parentes, para procurar trabalho, mas não consegui. Então, vim para Uberaba. Em 1958, aluguei um ponto, onde hoje funciona a Bandeirantes [na rua Tristão de Castro], loja do meu irmão. Fui com uns amigos para São Paulo e com os 120 contos comprei pouca mercadoria. Na loja, pegava as camisas e, ao invés de deixar fechadas, eu as colocava abertas no cabide. Expunha as coisas por ser pouca mercadoria.  

JM – Foi assim que surgiu a Loja São Paulo na rua Tristão de Castro?
Saadallah –
Isso mesmo, e a turma me pergunta: por que Loja São Paulo? É porque quando cheguei vi aquele mundaréu de cidade, com tantos prédios, chamada São Paulo. A cidade de São Paulo, em sua grandiosidade, é uma coisa de louco. Então, quando cheguei aqui e abri a loja, tinha que identificar, pois a loja que tinha antes era Casa Sem Nome. Um amigo me ofereceu uma placa velha, comprei e mandei pintar. “Que nome você vai pôr?”. Loja São Paulo. E luta não faltou. Às vezes viajava de noite para comprar mercadoria. Chegava de manhã, sem dormir, e trabalhava assim mesmo. Aí veio um irmão do Líbano, depois outro e depois mais um. Conseguimos abrir uma loja para o primeiro que veio, Elias Azor. Ele trabalhou um tempo comigo, depois juntamos dinheiro e abrimos a Calce Bem. Depois veio o Samir e abrimos uma loja na rua Artur Machado, em frente do Bar da Viúva, ele foi trabalhando e depois se casou. Eu estava na Tristão de Castro, onde era alugado, e fiquei uns 15 anos, então deu para comprar uma loja financiada na rua São Benedito. Depois de um tempo conseguimos comprar a loja que ficava na Tristão de Castro. Eu mudei um dia e no outro dia mais um irmão, o Facker, chegou do Líbano junto com meus pais para trabalhar lá, em sociedade com o Samir. Nos fundos da loja na São Benedito havia uma casa e então eu me casei. 

JM – Como foi que o senhor conheceu a dona Raué?
Saadallah –
O pai dela tinha uma loja ao lado da minha e era muito amigo meu, mas eu não tinha muito contato com a família. Conhecia-a muito pouco. Então, um dia fui trocar minha carteira de motorista e ela estava na fila. Conversamos e eu a convidei para sair. Namoramos por dois anos e nos casamos em 1978. Ela ficou grávida e foi aquela festa. No ano seguinte nasceu o Saadallah Filho e foi uma festa novamente. Em 1980, nasceu o Amir, e mais uma vez foi festa para todo lado, assim como quando também nasceu o Fauze, em 1982. 

JM – Uma característica marcante da cultura libanesa é a união familiar. A sua sempre foi assim em razão da separação temporária entre Líbano e Brasil?
Saadallah –
Muito unida. Aos poucos todos foram chegando e, enfim, trouxemos meus pais. Até hoje sempre reunimos os irmãos, as esposas e os filhos, uma coisa linda. De vez em quando digo à Raué que eu gosto da porta de casa aberta e escancarada para que esteja sempre cheia de gente. É comum fazemos churrasco em casa. Ela pica a carne e tempera, faz a kafta, eu espeto, coloco para assar e ponho cerveja para gelar, mas fico com um olho na churrasqueira e o outro na família. Sirvo um por um, porque meu prazer é fazer isto. Se for parar para pensar, escrevemos uma boa e gratificante história.  

JM – E como foi cuidar de três filhos e ainda trabalhar?
Saadallah –
Trabalhávamos o dia inteiro e os meninos estavam sempre por perto. Eles praticamente foram criados dentro da loja e, desde pequenos, também tinham as obrigações deles. Havia seus compromissos para poder preencher o tempo e acabavam ajudando a vender alguma coisa. O Amir gostava. Desde oito ou nove anos de idade ele punha uma caneta e um bloquinho de venda no bolso da camisa, calça jeans, botina e manga comprida. Quando uma pessoa entrava na loja, ele punha as mãos na cintura e perguntava: “Pois não, do que a senhora precisa?”. E não deixava ninguém pegar a venda dele, marcava tudo no bloquinho. O Saadallah gostava de organizar o caixa. Um por um, todos eles colaboraram com a loja. Eles me dão tanta alegria que nunca precisei mandar estudar ou trabalhar. Ficamos uns 17 anos na rua São Benedito e em 1993 compramos e nos mudamos para o espaço ao lado do Grande Hotel, onde até hoje funciona a Loja São Paulo. Já são mais de 20 anos na Leopoldino de Oliveira.

Raué [acompanhando atentamente a entrevista do marido] –
Já crescidos eles estudavam na loja, cada um tinha a sua mesa. As meninas que trabalhavam na loja sempre brincavam que se caísse uma bomba lá fora, o Saadallah Filho nem olharia, em razão de ser muito concentrado. O Samir ainda perguntaria o que foi que aconteceu, enquanto o Fauze largaria tudo para ir lá fora ver. 

JM – São mais de 50 anos de Loja São Paulo, como o senhor conseguiu ter sucesso no comércio e ficar tanto tempo trabalhando no ramo?
Saadallah –
Amo Uberaba. Ando nas ruas e sempre penso: não sei viver em outro lugar além de Uberaba. Conheço muitos lugares, mas não vivo fora daqui. Mas ninguém ganha dinheiro fácil. Começamos pequenos, com apenas 120 contos, e precisamos dedicar muito, porque não havia a quem apelar. O dinheiro que o empresário tem é o seu capital. Foi preciso dar duro e por isso aprendemos que para vender bem é importante trabalhar de forma correta e honesta. O que é meu, é meu, mas o que é do cliente, pode ser o que for, é do cliente. Cada um com o seu. O único jeito é trabalhar assim e ter muita persistência. É dar o preço que realmente o produto vale. Nossos fregueses sempre voltam e dizem que é porque acham o que querem e têm atendimento justo.






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