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Uberaba, 19 de setembro de 2018 -

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ENTREVISTA

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Recém-filiado ao PP, Anderson Adauto confirma que será candidato a prefeito

- Por Daniela Brito Última atualização: 27/09/2015 - 11:11:39.

Filiado recentemente ao Partido Progressista (PP), o ex-prefeito e ex-ministro Anderson Adauto confirma que está no páreo para disputar a eleição majoritária em 2016. A partir do início do ano ele retorna com a família à cidade para começar a trabalhar no processo eleitoral, o qual será feito, conforme ele mesmo diz, “à base de dízimos eleitorais”, em face do não-financiamento de empresas privadas. Nesta entrevista, AA lamenta a não-continuidade de projetos que deixou engatilhados para o atual prefeito Paulo Piau, o qual diz não ter perfil de gestor, embora reconheça a qualidade dele em ser um “bom parlamentar”. Para o ex-prefeito, Uberaba deve aumentar o número de cadeiras na Câmara Municipal e acredita que esta discussão deve ocorrer logo. AA também fala sobre a crise política e econômica, a situação da presidente Dilma Rousseff e sobre a economia do país.

Jornal da Manhã - Como ex-ministro do presidente Lula e ex-prefeito de Uberaba, como o senhor vê esse momento de crise política e econômica do país?
Anderson Adauto -
Acredito que a crise econômica de 2001 e 2002 tenha sido muito pior e mais forte que essa. Mas, hoje, eu vejo uma crise política seriíssima e aliada a ela a econômica. A presidente da República não se entende com o Congresso e vice-versa. Em minha opinião, a busca deste entendimento deve partir do Poder Executivo. Mas a “coisa” [o problema] começou primeiro com o resultado eleitoral. Essa nossa geração nunca viu um resultado tão apertado. Foi uma diferença muito pequena e a Dilma [Rousseff] demorou a tomar a decisão. Da eleição até dezembro de 2014, parecia que quem tinha ganhado era quem tinha perdido a eleição. A partir do dia 1º de janeiro, eu acreditei que ela surgiria com a faixa presidencial e começaria a governar. Ela foi esperando, esperando e instalou-se essa crise, que veio do imobilismo do Executivo. O mundo está em crise, esta é uma realidade. Mas ainda faltam quase três anos e meio de governo. Ela precisa de um recomeço. É preciso renegociar com o Congresso. O modelo brasileiro exige negociar permanentemente com o Legislativo. Isso é importante. É a regra. É a lógica, mesmo a presidente não gostando disso.  

JM - E como se resolve esta situação?
AA -
Se você quer cobrar mais imposto, primeiro você tem que demonstrar que está cortando na própria pele. Acho que ela tem que fazer essa reforma ministerial. É fundamental diminuir o número de ministérios, diminuir o número de assessores. Eu tenho convicção que se for prefeito de novo, eu trabalho com a metade de assessores que o atual prefeito tem e com dois terços das secretarias existentes. Eu tenho ciência disso.  

JM - O senhor integrou e sempre esteve mais próximo do grupo que está no governo... Acha que a situação atual do Brasil se deve a erros cometidos ao longo dos quatro mandatos do PT?
AA -
O que acentua é a corrupção na Petrobras. Tem que ser muito inocente para achar que foi o PT que iniciou este processo, que vem de anos. Mas tudo isso também é fruto de uma decisão de governo. A corrupção está mais evidente e as pessoas estão mais indignadas porque este governo, que está sofrendo este processo, é o mesmo que criou as condições e colocou a Polícia Federal em outra dimensão, em condições de correr atrás deste tipo de crime. Antes, não havia os equipamentos e condições necessárias. O mesmo governo que criou estas condições para a PF é o mesmo que fez as mesmas coisas que os outros faziam e que estão pagando também.  

JM - Recentemente o Supremo Tribunal Federal decidiu pela inconstitucionalidade de doações de empresas às campanhas eleitorais. Como político detentor de vários mandatos e pretenso candidato, como avalia essa decisão?
AA -
No meu entendimento, o Congresso não teve a ideia e a dimensão da crise e teve de vir do Judiciário. Toda a origem da corrupção vem do custo da campanha e, com esta desculpa, as coisas vão acontecendo. A Câmara e o Senado não tiveram a percepção disso e continuaram com o financiamento privado. Uma resposta final correta do Supremo ao questionamento claro e inteligente da OAB. Se uma empresa não vota, não pode influenciar em uma eleição. Nós sabemos que a empresa não vota, mas quando ela libera um milhão de reais para um determinado grupo, exerce uma influência grande no resultado final da eleição. Está errado!  

JM - E com esta decisão, o que espera da próxima eleição?
AA -
Claro que será uma eleição muito mais difícil. Eu tenho brincado que faremos uma eleição à base de dízimos eleitorais. Serão ajudas de pessoas físicas, onde cada um dá um pouco para que se possa fazer o mínimo que uma eleição precisa. Eu não sou a favor do meio-termo, que o brasileiro tenta ir, e negar coisas óbvias. O Brasil é um país capitalista. Por que não assumimos o lobby, que é regulamentado em vários países? Não pode ter o meio-termo. Ou regulamentamos o lobby e tudo que advém dali, ou seja, a empresa ajuda e, quando ajuda, quer levar vantagem mesmo. Ou vamos para o outro extremo, que é a proibição da ajuda privada. Uma coisa ou outra. O importante são regras claras. O que não pode é o meio-termo, que acabou gerando esse monstro, através da maior estatal brasileira que é a Petrobras.  

JM - O senhor teria vantagem neste processo, caso fosse candidato?
AA -
Acredito que sim. Eu tenho consciência. Eu sei das coisas que teria feito de forma diferente e não fiz, mas sei que nós acertamos muito. Nós tivemos vontade de acertar, a determinação, coragem e não nos importávamos se saíssemos desgastados em determinadas situações. Eu bati o martelo quando deveria ser batido. Não vejo isso na atual administração. Aquilo que muitos viam lá atrás como um excesso de determinação, hoje entendem realmente que se deve ter determinação e o prefeito tem que liderar efetivamente. Você pode ter vários grupos dentro da Prefeitura, desde que se tenha um comando único, que deve ser do prefeito. E quando o prefeito se abdica disso, temos o caos. E as pessoas têm a compreensão da realidade da Prefeitura. Não quero acusar. Vou abrir um parêntese: fiz um projeto que se ganhasse ou perdesse, eu iria morar fora. Eu queria sair da Prefeitura e a Prefeitura sair de mim, e de forma alguma prejudicar o prefeito eleito. E se as coisas não vão bem dentro da administração pública, a culpa não é minha. Marquei posição em uma coisa e outra. O prefeito teve toda liberdade de governar. Agora começa um novo processo político.  

JM - E como acredita que será este novo processo político?
AA -
Não será da forma que o atual governo estava pensando, em ganhar por W.O. Veja a quantidade de partidos que estão sendo cooptados, quantos assessores estão sendo contratados. Pessoas que não fazem nada estão dentro da Prefeitura. Dirigentes estão com emprego. Exatamente para juntar todo mundo e não dar condições de ninguém disputar. Mas o PSDB fugiu disso e se organizou como polo de poder e vai ter naturalmente candidato. E em mim não “doeu” muito as pessoas que eles levaram. Eu não sou canarinho, sou pardal, melhor de sobrevivência. Tenho o couro grosso. E a vida tem que ser assim, sempre se renovando. Minha meta é 35% de gente antiga e 65% de gente nova, que agora estou tendo a oportunidade de conhecer. Eu volto revigorado. Eu não quero que as pessoas achem que eu “não quero largar o osso”. Eu tenho consciência de que peguei a cidade em um patamar e a deixei em outro. Tenho consciência de que fiz um bem para a cidade. É muito legítimo o que queremos fazer. E a única coisa que queremos é que o nosso grupo tenha um nome para que a população possa analisar. É só isso.  

JM - O senhor acompanhou desde o início o projeto da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN) – a planta de amônia – em Uberaba e quando deixou a Prefeitura o projeto estava praticamente garantido. De lá para cá, vários fatores levaram praticamente à inviabilização da fábrica. Ainda acredita que ela possa ser instalada?
AA -
Eu tenho certeza que será, desde que saibamos trabalhar. Não adianta correr atrás da Petrobras, que não tem nenhuma condição de continuar. A planta só sairá por decisão governamental. O Brasil continua importando 75% daquilo que consome de fertilizantes. Nós temos que diminuir esta dependência. Sou testemunha do empenho do governador, através da Codemig, em buscar a solução. O governo estadual está trabalhando junto às partes. Só não entendo o prefeito desgastando o governo estadual neste assunto! Não sei se ele está desinformado ou é mal-intencionado com relação ao governo estadual. O governo estadual está trabalhando bem, em uma tese correta, juntando a realidade de Minas Gerais com a do Mato Grosso, onde existe outra planta, 82% concluída. Buscando alguém para comprar, buscando definição política da presidente Dilma, para que ela dê uma determinação para que a Petrobras possa fazer o que tenha de fazer. Chegou a hora de o país ter uma política definida sobre fertilizante.  

JM - Como deve ser viabilizada? O senhor acha que o gasoduto mineiro, vindo de Betim, é viável?
AA -
Já está tudo definido. O esboço está pronto, em processo de estruturação para que venha uma solução. Acredito que esta solução venha em seis meses. O Paulo Piau tem conhecimento disso há uns quinze dias. E quanto ao gasoduto, tudo é viável, desde que se tenha dinheiro. Ninguém deveria dizer se quer o gasoduto daqui ou de acolá. Nós precisamos ter o gás, seja ele de onde vier. E dar a liberdade ao governador Fernando Pimentel, que está trabalhando, empenhado e comprometido com o gasoduto. Agora, de onde virá, eu creio que virá de São Paulo, e não de Queluzito. E por razões óbvias. E eu quero aqui fazer uma crítica, quando o então governador Anastasia veio e anunciou o duto vindo de Betim, de quinhentos quilômetros. Os políticos aplaudiram o governador, foram uns bobocas. Eles não fizeram o que tinham que fazer, não questionaram por que não fazer um duto de 150km ao invés de outro de 500km. Preferiram as palmas fáceis para o governador de então. Eu fico indignado quando ouço o prefeito dizer que tem que cobrar o governo estadual. O governo está trabalhando de forma correta.

 JM - Alguns projetos iniciados em sua administração estão sendo concretizados agora. Podemos citar o Hospital Regional, o BRT e a ZPE... Esses projetos já poderiam estar concluídos e funcionando?
AA -
Sobre as obras iniciadas por mim, que são várias e muito importantes, o atual governo é vítima da política provinciana que quis adotar, foi raso, contrário aos interesses da população e pagará caro por isso! Ele não quis dar continuidade para que as pessoas esquecessem que os projetos eram meus. Veja quanto do Hospital Regional eu deixei pronto e o quanto ele fez. Uma merreca em termos percentuais. E acho que ele quis beneficiar o Marcelo [Palmério] ao deixá-lo inaugurar o outro hospital [Mário Palmério Hospital Universitário] em detrimento da inauguração de um hospital público.  

JM - E o projeto do BRT?
AA -
O meu projeto não tinha tachões, não tinha essa cerca de fora a fora, segregando. Só tinha parte da grade, para dar proteção para quem chegava e saía das estações, e ainda teríamos um sistema de semaforização inteligente. O atual governo alterou todo o projeto e prova que mudou. Depois, quando começou a receber críticas, começou a jogar culpa no meu governo, se fazendo de vítima. E tem mais: eu deixei o dinheiro liberado para a continuidade do projeto, no eixo Sudoeste/Sudeste. A presidente Dilma confirmou isso na sua visita a Uberaba no primeiro mandato dela. Para mim, o governo atual foi provinciano demais, pegando as coisas importantes da cidade e deixando-as em segundo plano. Passará para a história como um prefeito que não fez nada e que não conseguiu nem terminar o que eu iniciei. Nem aquelas obras e ações que deixei os recursos assegurados e projetos prontos, hoje corre-se o risco de não implementar nada. 

JM - O senhor tem se apresentado como pretenso candidato a prefeito em 2016... É ou não? Teria condições jurídicas para tal?
AA -
Eu serei candidato. Na minha avaliação, tudo será solucionado do ponto de vista jurídico. Eu não tenho nenhum problema de corrupção no meu governo. Mudo-me para Uberaba no início de 2016, exatamente para fazer o meu trabalho, que é conversar com as pessoas, e muitas delas estão pedindo para que eu volte. Eu brinquei um dia que sentiriam saudades de mim. E os anjos disseram amém! Muita gente diz que não gosta de mim, mas reconhece que eu tenho que voltar. E tenho recebido recados que a cidade está precisando de um bom prefeito e não de um prefeito bonzinho. Eu abri a cidade. E hoje vejo que tudo voltou como antes do meu governo.  

JM - Em que pé estão os processos aos quais responde?
AA -
Eu terei as condições jurídicas, só não vou discutir isso em público. Meus advogados estão cuidando junto ao Judiciário. Quem quer me ver prefeito de novo, pode ficar tranquilo, que vou dar conta. E quem tem receio que eu volte, pode pôr as barbas de molho, porque a probabilidade de eu voltar é grande, do ponto de vista jurídico.  

JM - Na reeleição o senhor usou muitas informações de seu governo como comparativo. Numa eventual disputa sua com o atual prefeito, o senhor pretende usar novamente esta estratégia?
AA -
Claro. Em todas as áreas eu criei mecanismos de controle e condições de mensurar todo nosso trabalho. Na Saúde, por exemplo, eu tinha como saber o número de atendimentos de cada lugar. Ouço falar que a atual administração derrubou isso. E estou seguro que o processo de comparação é que faz as pessoas pedirem o “volta Anderson”. Na comparação, na maioria dos índices, nosso governo era melhor. Temos que ter muita determinação para ser gestor. E a minha era muito mal compreendida, pois diziam que eu era intransigente. 

JM - Agora, o senhor acredita que amadureceu?
AA -
Eu estarei quatro anos mais velho. E quatro anos depois do cinquenta fazem uma diferença danada! [risos] Mas hoje, com a falta de mando dentro da Prefeitura, as pessoas têm uma percepção mais positiva das minhas ações. E as pessoas, de todas as classes sociais, dizem que estão com saudade de mim.  

JM - O atual prefeito era um aliado do senhor quando chefe do Executivo... Vê muita diferença entre vocês?
AA -
Não sou melhor do que ele, nem ele melhor do que eu. Somos totalmente diferentes! Eu não apoiei o Paulo porque sabia que ele seria assim. Eu o conheço bem. É um bom parlamentar, mas não daria a cidade que eu moro para ele administrar. Não tem perfil para gestor. Ele não gosta de se arranhar. Se puder prorrogar uma discussão ao máximo, sem tomar partido, ele vai tocar.  

JM - Qual a expectativa do senhor quanto à campanha do próximo ano?
AA -
Isso se faz de forma planejada. Já tenho um partido, o Partido Progressista, ao qual estou filiado. Estou montando a chapa de vereadores. Conseguimos montar duas chapas de vereadores completas. Estou satisfeito. E, por essa questão do não-financiamento privado, teremos que ir com o mínimo possível.  

JM - Mas o Partido Progressista é aquele que mais aparece no escândalo da Lava-Jato... Isso não é prejudicial para a sua campanha eleitoral?
AA -
Eu diria que se a Polícia Federal quiser pegar o processo e fiscalizar todos os partidos, eu acredito que não fica nem um de pé. Talvez o Psol. Todos têm aquela concepção de ser financiados por empresas. E a maioria das grandes empresas, inclusive as que estão na Lava-Jato, ajudou todo mundo. Só quem ajuda o PT é corrupto? E as ajudas ao PSDB, para o DEM e PMDB, não? É um processo seletivo. Mas acho que, para uma prefeitura, o que vale não é o partido. O que o eleitor vai buscar é o perfil do gestor e não o partido.  

JM - E como o senhor vê a possibilidade de aumento do número de cadeiras na Câmara? 
AA -
Eu acho que pela cidade, pelo tamanho e dimensão, Uberaba teria que ter, pelo menos, 21 vereadores. Mas não sei se os vereadores estão analisando por esta lógica. Como prefeito, eu prefiro lidar com catorze do que com vinte e um. O pior é essa regra não ser definida agora. Acho que o presidente Dutra deveria definir isso logo. É bom para quem está organizando. Estou organizando chapas para catorze vereadores.

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