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Uberaba, 19 de setembro de 2018 -

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ENTREVISTA

Comandante coloca polícia nas ruas para combate ao crime

De janeiro a novembro de 2013 houve 19 homicídios em Uberaba (Leia mais...)

- Por Thassiana Macedo Última atualização: 01/02/2015 - 15:53:27.

Segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), de janeiro a novembro de 2013 houve 19 homicídios em Uberaba, de um total de 24 casos naquele ano. No mesmo período de 2014, o número de homicídios saltou vertiginosamente para 43. Como os dados de dezembro do ano passado ainda não foram apurados, esse número pode ser ainda maior. Este ano, dados extraoficiais indicam 12 homicídios registrados.

Quanto às tentativas de homicídio, 42 casos foram registrados nos primeiros 11 meses de 2013, de um total de 46. No mesmo período do ano passado foram 70 tentativas. O número de roubos neste período de 2013 foi de 1.630, de um total de 1.891. No entanto, em 2014, os casos registrados desse tipo de crime subiram para 2.884.

Para falar sobre as ações de combate à criminalidade no município e na região, o Jornal da Manhã traz hoje entrevista com o novo comandante da 5ª Região da Polícia Militar (5ª RPM) em Uberaba, coronel Edvaldo Piccinini Teixeira Júnior. 

Jornal da Manhã – Qual a sua formação e por onde o senhor passou antes de chegar ao comando da 5ª RPM?
Coronel Edvaldo Piccinini Teixeira Júnior –
Tenho 27 anos na Polícia Militar e servi praticamente durante todo este período em Belo Horizonte, com exceção dos seis meses de aspirantado, em que estive no Batalhão de Juiz de Fora. Em Belo Horizonte, passei por várias unidades, mas as principais foram como tenente, no Batalhão de Polícia de Choque; como capitão também neste batalhão, na diretoria de segurança do gabinete militar do governador; como major eu tive a oportunidade de trabalhar na diretoria de recursos humanos e ser subcomandante do Batalhão de Polícia de Guardas, bem como comandante do mesmo batalhão e comandante do Batalhão de Trânsito, já como tenente-coronel. Fui promovido em janeiro deste ano e designado para vir comandar a 5ª Região aqui, em Uberaba. 

JM – Que diagnóstico o senhor recebeu da criminalidade em Uberaba e na região e qual foi a sua avaliação?
Cel. Edvaldo Piccinini –
O diagnóstico inicial demonstrou que aqui é uma região bastante próspera do Estado e o que nos preocupa mais é a questão da criminalidade violenta. Ela teve um aumento fora da curva, além do que poderíamos considerar normal, diante das situações que acontecem no país, de 2013 para 2014. E esse aumento que consideramos elevado é a minha preocupação e abracei como principal missão aqui na região, em especial na cidade de Uberaba, que tem tido o maior aumento. Alguns municípios da região, inclusive, tiveram queda, mas em Uberaba houve um crescimento considerável devido ao tamanho e ao porte da cidade, o que tem puxado os índices da região para cima. Então, este é meu foco inicial no comando: combater a criminalidade violenta e tentar reduzir esses índices. 

JM – Seria possível explicar por que isso aconteceu?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Fiz algumas análises. A criminalidade tem crescido no Brasil como um todo. Temos problemas com a nossa legislação, no sistema penitenciário e com a Justiça, que não é tão célere como todos esperavam. Então, existem vários fatores que contribuíram para o aumento da violência. Em especial, com maior participação, eu atribuo à questão da sensação de segurança. Há algum tempo começou-se a discutir a criação do segundo batalhão. Porém, creio que a forma como essa demanda foi colocada pode ter gerado a insegurança na população e certa tranquilidade aos infratores da lei para poderem agir. Isso, no sentido de passar uma imagem, que inclusive não considero verdadeira, de que o efetivo não é suficiente para poder prover a segurança. E a informação chega a todo mundo, seja até o cidadão de bem, seja àquelas pessoas propensas a cometer determinado delito. Além disso, normalmente, essas notícias extrapolam as fronteiras do município e do próprio Estado. Essa sensação de insegurança é o que tem atraído muita gente para o crime. Imagino que o que podemos fazer é aumentar essa sensação de segurança com a nossa presença mais ostensiva nas ruas. Acredito que em termos de segurança, quanto mais efetivo da Polícia Militar, melhor. Sempre estamos buscando mais junto ao comando, para o Estado inteiro, mas o efetivo existente aqui hoje é suficiente para mantermos o controle da criminalidade na cidade. 

JM – Quando o senhor fala que sua abordagem vai ser mais focada nos crimes violentos, o que pode ser feito para reduzir estes índices e coibir esse tipo de crime?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Um primeiro fator é mostrar a nossa presença aqui e no que vamos trabalhar, na presença mais ostensiva da Polícia Militar. Existem duas formas de se fazer segurança. Uma é ter foco no infrator da lei, sempre saindo atrás dele na viatura com a intenção de prendê-lo. E outro é no cidadão de bem, estando presente nos locais onde a comunidade trabalha e estuda para evitar que o crime aconteça. Acredito que a presença maior da Polícia Militar e a divulgação da nossa capacidade de fazer frente ao crime, por si só, vão espantar aventureiros que procuram Uberaba. Percebemos que esse aumento da criminalidade violenta está muito focado em um tipo de roubo específico, que é o roubo a transeunte, em busca, principalmente, do celular. E não há o envolvimento de nenhuma quadrilha. São pessoas que caminharam para esse crime, considerado como grave pela Justiça, a partir de crimes menos graves, como tomar o celular de outra pessoa, ao utilizar de força ou ameaça, enquadrando-se como crime violento. E isso pode ser coibido com a nossa presença e, é lógico, com repressão imediata. Além disso, vamos continuar o trabalho com medidas de autoproteção. 

JM – Que trabalho é este?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Conscientizar as pessoas sobre como se prevenir. Os aparelhos celulares hoje têm um valor muito alto, custando mais de R$2 mil. Então, as pessoas não podem ficar ostentando isso em via pública, andando sozinhas enquanto passam mensagens ou falando com alguém. Com isso, um infrator que estiver passando aproveita a oportunidade. É importante que a população também nos ajude. diminuindo estas oportunidades para reduzir os roubos a transeuntes.  

JM – No ano passado também tivemos um aumento nos casos de estupro; foram 18 crimes desse tipo de janeiro a novembro de 2013, contra 28 casos no mesmo período de 2014. Que outras medidas de segurança a população pode tomar?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Há orientações que podem prevenir os crimes de uma forma geral. Uberaba é uma cidade que cresceu muito e continua atraindo pessoas de vários lugares por ter novas empresas se instalando aqui. Então, o comportamento em uma cidade desse porte já não pode ser o mesmo de uma cidade pequena do interior. Por isso, sempre orientamos que as pessoas evitem estacionar veículos em local ermo, que fiquem conversando dentro do carro parado na rua, o que tem acontecido muito aqui, bem como evitar se deslocarem sozinhas em locais ermos. São estas situações que podem proporcionar a ocorrência de um crime.  

JM – O senhor mencionou o segundo batalhão e a questão do efetivo, dizendo que quanto mais, melhor... Há alguma previsão de quando este projeto será efetivado?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Existe o estudo que já foi entregue para a sua criação. Sabemos que com o crescimento da cidade, mais cedo ou mais tarde isso vai ser efetivado, mas tem que ser algo planejado e que não vai ocorrer em curto prazo. Se nós simplesmente criarmos um batalhão, dividindo o 4º Batalhão em dois, vamos dividir as companhias e esse novo batalhão irá precisar de uma administração. Na prática, estaremos retirando policiais militares das ruas. Ou seja, essa não é uma solução imediata. Isso tem que ocorrer com um aumento considerável de efetivo. A prioridade é receber efetivo para recompor o 4º Batalhão para que possamos ter mais tranquilidade e, no futuro, já acompanhando o crescimento da cidade, criar o novo batalhão de uma maneira estruturada. Existe uma promessa do governo do Estado de recompor o efetivo da PM e a vontade da PM em recrutar cerca de três mil militares por ano nos próximos quatro anos. Então, talvez tenhamos esse efetivo até o final deste governo para isso. Está para sair uma autorização para o próximo concurso, mas todo o processo demora em torno de um ano e meio. 

JM – E quanto ao combate ao tráfico de drogas?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Na região do Triângulo Mineiro há muita circulação de drogas para o país. E esse combate é feito de forma integrada entre a PM, Polícia Federal e Polícia Civil. Temos histórico de apreensões de grandes quantidades de drogas. Se não me engano, uma delas foi de 20 toneladas, uma das maiores do país. Na sexta-feira (27) estive reunido com Karen Dunder, superintendente da Polícia Federal na região, e o trabalho conjunto vai continuar. 

JM – Em 2014, a PM apreendeu um equipamento capaz de evitar o travamento elétrico de portas de veículos. Porém, a quantidade de veículos furtados e roubados também foi enorme no ano passado...
Cel. Edvaldo Piccinini –
Também nestes casos precisamos muito da ajuda dos cidadãos e das medidas de autoproteção. No caso dos furtos com este aparelho, é importante que a população tenha conhecimento de que existe esse tipo de equipamento, para que a pessoa confira o trancamento do carro após acionar a trava. São medidas simples, que anulam esses crimes. Com relação aos roubos, realmente têm acontecido muito, em especial no caso das caminhonetes a diesel. Acreditamos que há uma quadrilha atuando. Nosso trabalho é a prevenção e a repressão junto com as polícias Civil e Federal, para identificação e prisão dos criminosos, mas descobrimos casos de golpes de seguro. Esta semana mesmo tivemos uma prisão em flagrante em um desmanche em que estavam desmontando a própria caminhonete para receber o seguro. E há dois fins: o desmanche por conta do alto valor das peças e o transporte até a fronteira para trocar por drogas. 

JM – O Pelotão de Trânsito aplicou milhares de multas no ano passado, mesmo assim o trânsito em Uberaba continua violento, com mais de 40 mortes registradas dentro da cidade e nas rodovias da região... O que a PM faz para tentar melhorar essa realidade?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Nossa atuação é fiscalizar os veículos e as condições dos condutores. Estatísticas comparadas a outras regiões demonstram que temos uma produtividade de fiscalização bastante alta. São as blitze da Lei Seca, para reduzir a circulação de motoristas embriagados, que podem provocar acidentes. E também nas blitze para fiscalizar as condições dos veículos, ou seja, verificar os equipamentos, pneus, etc. É o que podemos fazer e temos feito dentro da medida de nossas possibilidades. Além disso, temos aproveitado, como eu fazia em Belo Horizonte, para linkar a nossa atividade de trânsito no combate à criminalidade. Ao pararmos um veículo, verificamos se o condutor tem mandado de prisão, se o veículo é roubado ou furtado e se há arma dentro dele. Intensificando as blitze, podemos diminuir a criminalidade, trabalhando melhor a seleção do abordado, fazendo as duas coisas. 

JM – Seu antecessor no cargo, em entrevista ao Jornal da Manhã, reclamou das dificuldades em manter bandidos longe das ruas, uma vez que a polícia prende, mas a Justiça coloca em liberdade no dia seguinte... Como o senhor vê essa questão?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Concordo, e este tem sido um assunto muito discutido no país. Acredito que esteja se tornando quase unanimidade a necessidade de rever nossa legislação penal, tanto para o adulto quanto, principalmente, para o menor infrator. Considero que a legislação é branda e não está surtindo efeito no país da forma esperada. Tem sido cada vez mais comum prendermos pessoas com outras passagens, que cumpriram o que diz a lei, mas que estão nas ruas cometendo crimes, ficando claro que não estão se recuperando. Os menores têm sido, inclusive, usados para estar na linha de frente, e a solução disso é a revisão da legislação pelo Congresso Nacional. Precisamos de penas mais efetivas. 

JM – O que deveria mudar na punição do menor infrator? A redução da maioridade penal?
Cel. Edvaldo Piccinini –
Trata-se de um estudo polêmico, não é simplesmente reduzir de 18 para 16 anos. Creio no foco no tipo de delito ou na reincidência cometida pelo menor infrator e a partir daí aplicar penas maiores. O que não significa que eles serão misturados aos detentos maiores, por isso acho que a idade não teria muita importância.

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