JM Online

Jornal da Manhã 46 anos

Uberaba, 24 de setembro de 2018 -

BUSCAR EM TODAS AS SEÇÕES BUSCAR
Buscar

ENTREVISTA

O libanês que encontrou em Uberaba a terra prometida

Na edição de hoje, o Jornal da Manhã revela a história do patrício Nayef Habib Fakhouri

- Por Thassiana Macedo Última atualização: 14/12/2014 - 13:20:18.

Na edição de hoje, o Jornal da Manhã revela a história do “patrício” Nayef Habib Fakhouri. Como o próprio Nayef diz, é como “abrir o baú para mostrar todas as relíquias antigas” que o seu coração guarda há tantos anos e sob grande emoção. Natural da pequena aldeia Zawarib, localizada no norte do país, Nayef veio para o Brasil seguindo os passos dos irmãos mais velhos em busca da “terra prometida”, aos 18 anos. Hoje, aos 66, sua principal fala gira em torno do quanto gosta de Uberaba e de que nunca a trocaria pelo Líbano, muito menos por qualquer outra cidade brasileira. Aliás, ele recita trecho do poeta libanês Said Akel: “Deixei meu país, rompi laços maternos, preferi ‘paus-brasis’ aos meus cedros eternos”. Até porque foi aqui que ele prosperou com a Loja Brasil, localizada na rua Artur Machado há mais de 40 anos. Em Uberaba, foi diretor do Clube Sírio Libanês por 30 anos, onde “re-conheceu” a esposa Marie Daoud Fakhouri e criou os quatro filhos: Roger (cirurgião plástico), Omar (urologista), Daniel Nayef Fakhouri (cirurgião geral) e a caçula Patrícia Fakhouri Dias (ortodontista). 

Jornal da Manhã – Quantos anos tinha quando o senhor decidiu deixar o Líbano e vir para o Brasil? E como era o país naquela época?
Nayef Habib Fakhouri –
Sou o caçula de uma família de oito irmãos, quatro homens e quatro mulheres. Três deles vieram para o Brasil antes de mim. A minha saída do Líbano aconteceu em 1957 e eu tinha 18 anos na época. A minha despedida é a história de todo imigrante que sai do Líbano... [fala com voz embargada] A minha aldeia era pequena e a convivência entre sua população era como a de uma família só, então, quando decidi vir para cá, atrás de um futuro melhor - já que o Líbano havia saído de uma dominação francesa, depois de uma dominação turca -, havia muito poucas chances para o jovem conseguir trabalho, sobreviver e constituir família. Meus irmãos estavam aqui, no Brasil, começando a ir bem e me chamaram. Com esta idade estava terminando o curso de agronomia, mas antes de terminar decidi vir para cá. Na despedida, tanto quem está saindo quanto os que estão ficando acham difícil se tornar a ver. No último dia, visitei todas as casas da aldeia, despedindo-me, sabendo que seria difícil tornar a vê-los, como de fato levou 30 anos para eu conseguir voltar. À noite vieram, uns para se despedir, outros para confortar e outros pedindo para não demorar... [se emociona novamente] E assim saí da minha aldeia e fomos para Beirute pegar o navio grego e antigo. Era julho de 1957 e às 16h30 o navio deu o sinal da partida. Dormimos naquela noite e no dia seguinte amanhecemos em Alexandria, onde ficamos poucas horas para abastecer. Fomos para a Grécia e de lá para Gênova, na Itália, onde ficamos três dias e passeamos. Até que chegamos ao porto do Rio de Janeiro, após viagem de 25 dias. 

JM – Qual era o sentimento desse jovem de 18 anos que estava deixando seu país e pessoas tão queridas?
Nayef Habib –
O sentimento era o mesmo daqueles que estavam saindo do Egito atrás da “terra prometida”. Para nós, libaneses, o Brasil era a terra prometida. Embora nosso país seja muito bonito e o lugar onde nascemos, estudamos e fomos criados, não tinha condições de oferecer aos seus filhos o futuro que almejávamos. Existem mais libaneses fora do Líbano do que dentro dele. Aliás, o Líbano agora está sendo invadido pelos flagelados da Síria, da Líbia e de outros países em conflito. No Líbano, não há nem quatro milhões de libaneses. Só no Brasil temos 1,5 milhão de libaneses e seus descendentes, fora Argentina, Estados Unidos, Austrália e outros países. O objetivo de todo imigrante é alcançar um futuro melhor. Não me arrependo de ter saído do Líbano, porque, graças a Deus, aqui consegui encontrar uma ótima esposa, formar um lar, criar meus filhos e hoje sou mais brasileiro do que libanês. No Líbano vivi 18 anos e estou aqui há 57 anos. 

JM – Quais foram as primeiras impressões que teve ao chegar ao Rio de Janeiro e à “terra prometida” que o senhor tanto esperava encontrar?
Nayef Habib –
A primeira coisa que queria ver era meu irmão Tamer, porque ele me deixou com oito anos de idade, que foi ao meu encontro junto com um primo, Antônio Ferreira, descendente de libaneses e nascido em Uberaba. Na época, meus irmãos Tamer, Nazir e Ibrahim e meu primo moravam em Belo Horizonte. Meu irmão me perguntou se eu havia concluído os estudos e disse que não, então ele disse que eu deveria fazer isso no Brasil. Ele me matriculou, mas eu mal sabia falar “bom-dia” em português. Com a convivência dos colegas, amigos e funcionários da loja dele, em menos de dois meses comecei a me sair mais ou menos bem. Foi muito difícil conciliar os estudos à noite com o trabalho de dia, no fim decidi abandonar a escola. Achava fácil a geografia, o francês e a matemática, mas a história foi muito difícil. [risos] Comecei a trabalhar na loja dos meus irmãos, sem salário, mas pelo menos não passei dificuldade e tinha todo o carinho deles comigo. Aliás, eles queriam que eu estudasse para medicina, era a exigência deles e a minha vocação naquela época, mas realmente não deu. A princípio foi muito difícil me acostumar com o Brasil. 

JM – Qual foi a parte mais difícil?
Nayef Habib –
O primeiro Natal no Brasil. Fomos convidados para a casa do primo Antônio. No Líbano, essa época era só brincadeira com os amigos. Aqui me senti um peixe fora da lagoa. Ganhei uma camisa de presente. Pelo sistema americano, cada um pegava seu prato, ia até o aparador e servia as iguarias que tinha lá. Fiz meu prato modestamente e sentei praticamente isolado, não tinha ambiente para mim. Havia chegado em julho e não tinha amigos, embora meu primo fizesse de tudo para me ver alegre. Todos conversavam quando minhas lágrimas começaram a rolar... [emocionado] Quem percebeu foi a esposa do meu primo, antes de ela chegar a mim já tinha começado a chorar. “O que foi, meu filho?” E eu disse: “Nada”. Mas ela retrucou: “Não pode ser”. Então, disse que estava com saudade dos meus pais e da minha terra. Então, me tornei o centro das atenções. A partir desse Natal foi só alegria, pois me enturmei, dominei melhor a língua e comecei a sair com os amigos. Dois anos depois da minha chegada decidimos trazer meus pais e a irmã que havia ficado, foi motivo de alegria e conforto espiritual. 

JM – Havia tanto Brasil, por que escolheram Minas Gerais?
Nayef Habib –
Justamente porque tínhamos tios em Uberaba, Santa Juliana e Patrocínio. Quando chegou, meu primeiro irmão foi para Patrocínio, passou por Uberaba e decidiu ir para Belo Horizonte, onde foi ajudado por um primo. Ele começou a crescer e trouxe o segundo irmão, viram que poderiam trazer o terceiro, até que chegou minha vez. Por isso, a escolha foi, primeiro, Belo Horizonte, uma cidade muito bonita, mas não troco Uberaba por Belo Horizonte. Vim para cá em 1968 e até hoje estou no mesmo local, muito feliz, porque foi onde criei meus quatro filhos, três médicos e uma dentista. 

JM – E como foi que o senhor veio parar em Uberaba?
Nayef Habib –
Saí de Belo Horizonte em 1961 e me estabeleci na rua Artur Machado, em outro número. No ano seguinte, meu irmão veio atrás de mim e me pediu que voltasse para trabalhar lá com ele. Nesse um ano que permaneci em Uberaba revi minha esposa. Eu já a conhecia do Líbano, quando ela tinha um ano de idade. As nossas mães são primas primeiras e os nossos avós, irmãos. Devido ao parentesco, meu coração palpitou por ela. Naquela época apareceu um rapaz com um filme árabe e a colônia toda estava saudosa. O filme ia passar no Cine Vera Cruz. Como eu estava de olho nela, comprei entradas para ela e os pais dela. Acontece que o tempo da minha permanência aqui foi curto e em 1962 voltei para Belo Horizonte. Comunicávamos por carta, até que decidi vir aqui com meus pais para pedir oficialmente a mão dela como minha noiva em 1965. Ficamos noivos um ano, em 1966 nos casamos e voltamos para Belo Horizonte. Ganhei o meu primeiro filho, Roger, e um mês depois do nascimento dele ela engravidou do segundo, Omar. Ela começou a ter dificuldade na criação do Roger. Então o irmão dela, Cecin Yacob, cirurgião plástico e professor em São Paulo, sugeriu que morássemos em Uberaba, pois aqui era muito bom e a mãe e as irmãs de Marie poderiam ajudar com as crianças. 

JM – Esta situação foi determinante para que voltasse a Uberaba?
Nayef Habib –
De fato foi um incentivo. Olhei este ponto junto com o pai dela. Era uma construção antiga e pequena na frente, em reforma, e um barraco no fundo. Fechei negócio, voltei para Belo Horizonte e desfiz a sociedade na loja de calçados. Meu irmão ficou sentido por eu sair do seio da família, mas vim e recebi todo o carinho dos meus sogros, Daoud Yacob e Helena Salum, principalmente da minha sogra. As minhas cunhadas Ivete, Cecília e Najha nos ajudaram muito a criar os quatro filhos. Hoje, eles trabalham em Brasília e são meu orgulho. Eles insistem comigo para ir morar em Brasília, mas não deixo Uberaba. Aqui me sinto realizado com meu trabalho, a criação da minha família, meus filhos e amigos. 

JM – Como era Uberaba e o comércio quando o senhor chegou? Era muito diferente de hoje?
Nayef Habib –
Uberaba é uma cidade maravilhosa e o povo, muito hospitaleiro, só que entre a Uberaba de hoje e a de antes há diferença. A insegurança se tornou muito grande. A bandidagem nos tira a tranquilidade e antes não era assim. Colocávamos uma cadeira na frente da casa e quem passava participava da conversa, se sentava, e até oferecíamos café. Hoje, para abrirmos o portão da garagem para sair, sentimos medo. Mesmo assim, prefiro Uberaba, porque outro lugar vai ser pior que aqui. Meu irmão foi muito bom para mim e vim de Belo Horizonte com um pequeno capital. Comecei abrindo a loja também aos sábados e domingos, o dia todo, para não fazer feio perante meus irmãos que não queriam que eu viesse. A princípio aluguei aqui [atual endereço] e dois anos depois comprei, em mais dois anos construí o prédio que existe hoje. O início foi difícil, mas exigiu de nós disposição, luta, sacrifício e honestidade, e muitas noites de sono fazendo contas. Antes era tudo na caderneta e na base da confiança. Quando uma pessoa comprava, ela assumia um compromisso moral e o endividado não dormia até saldar sua dívida, embora hoje exista cartão de crédito e maneiras mais sofisticadas de cobrar. Ganhamos a confiança do freguês porque vendemos com preço honesto, sem usar dois pesos e duas medidas. Isso fez com que continuássemos aqui por quase meio século, por isso me sinto grato ao povo uberabense. O consumidor aqui não é cliente, é amigo. 

JM – O senhor mantém contato com as pessoas da colônia libanesa?
Nayef Habib –
Aqui, em Uberaba, o contato é muito grande, mas foi maior quando eu fazia parte da diretoria do Clube Sírio Libanês, por mais de 30 anos. Das festas que promovíamos lá, a que mais se destacou foi “As Mil e Uma Noites”, cujo criador fui eu, com o apoio do presidente Abadio Miguel Júnior. Ele me dava liberdade para contratar cantores, músicos e odaliscas, que eu buscava em São Paulo. Só a decoração, em 1991, ficou em mais de R$14 mil. A festa agradou tanto que o clube ficou pequeno e atraiu também os uberabenses, podemos admitir que 35% eram libaneses. Ela tinha tanta fartura que o que arrecadávamos não cobria os custos, mas o lucro social era tão grande que a euforia tomava conta de todos para o ano seguinte. Foram sete edições e depois o clube começou a sentir dificuldades financeiras. A intenção era manter a chama da cultura libanesa acesa. Outra luta ferrenha era termos uma escola árabe para ensinar nossos filhos e a quem quisesse aprender. Criamos, equipamos e hoje a escola leva meu nome. Conseguimos um professor de Ribeirão Preto, mas era difícil para ele se locomover até aqui duas ou três vezes por semana e havia custos para o clube. Então, eu e Flávio Hueb visitamos as embaixadas do Líbano e da Síria para ver se eles nos concediam um professor, às custas do governo. A ideia era boa, mas os países sofriam problemas políticos, estavam em guerra e não tinham condições de arcar com essa despesa. Voltamos para Uberaba e um dia a escola voltará a funcionar. Mantenho contato direto com o Líbano através de um telefone voIP (voice over Internet Protocol), mas não trocaria o Brasil pelo Líbano, ficarei aqui pelo resto de meus dias. 

JM – O senhor disse que o retorno ao Líbano levou 30 anos. Como foi?
Nayef Habib –
As lágrimas que derramei com amargura na minha saída em 1957 se transformaram em lágrimas de alegria na minha chegada, em 1987, porque 30 anos não são 30 dias ou 30 meses. Na época, o Líbano estava em guerra, então tivemos que entrar pela Síria e depois atravessar as fronteiras. Quando entrei na minha aldeia, muitos esperavam a minha chegada, muitos dos que deixei já haviam morrido ou saído do Líbano. Quando estávamos a caminho, perguntei à minha irmã onde estava nossa aldeia, e ela disse que já estávamos nela. Brinquei que haviam estragado a minha aldeia, mas é que a modernidade chega a todo lugar. Ela cresceu muito, mudaram as edificações e a juventude, não lembra mais nada do que foi no passado. Fiquei lá 45 dias e há três anos voltei com minha esposa, meus irmãos e dois filhos. Tivemos uma recepção maravilhosa. Os libaneses amam o Brasil, há ruas, avenidas e restaurantes com o nome Brasil. Uma nova viagem sempre está na nossa programação, mas enquanto sentirmos que nossa ida pode ser perigosa, não podemos arriscar. 

JM – Soube que o senhor assiste, diariamente, ao canal Al Jazira, dedicado ao mundo árabe... Como o senhor vê o turbulento quadro dos países árabes nos dias de hoje e a situação do Líbano?
Nayef Habib –
Até hoje o nosso povo não conseguiu eleger um presidente, existe divergência de opiniões entre as religiões. Porque a política do Líbano é baseada nas religiões. Temos os muçulmanos, que se dividem em xiitas e sunitas, e temos os cristãos, que se dividem em católicos, protestantes, ortodoxos e maronitas. Temos também os drusos e os alauitas. Cada uma quer a sua parcela de representação política no Líbano, por isso o país está repartido. Além disso, existe a guerra na Síria, provocada por grupos terroristas fanáticos, financiados por alguns países árabes e ainda pelos Estados Unidos, que também ofereceu treinamento. Agora estão dando treinamento e armas para que outro grupo os derrube.

Notícias Relacionadas

DESENVOLVIDO POR Companhia da Mídia