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02/12/2008

JM Extra Educao: A princesinha vai escola

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Os recrutas mais jovens, munidos de lápis de cor e canetinhas, assumem o turno da tarde, prontos para dar os primeiros passos no caminho do abecê. A cena é tão comum que parece difícil imaginar um tempo em que estudar não funcionava bem assim ou nem mesmo era obrigatório. Porém, numa Uberaba ainda marcada por ruas de terra vermelha, onde sequer havia notícias sobre energia elétrica e gado zebu, o modelo de escola era diferente e acessível para poucos.

Quem se aventurou na recém-nascida Princesinha do Sertão e enriqueceu por causa dos bons negócios feitos com as caravanas vindas do litoral dava-se ao luxo de mandar as crianças para internatos nos grandes centros e até fora do país. Se o dinheiro não era suficiente para tanto, o sistema educacional precário da época oferecia duas alternativas: contratar um tutor para ensinar em casa ou enviar os filhos para as chamadas escolas isoladas, onde estudantes de diversas idades tinham aulas, juntos, na casa do professor.

De qualquer jeito, a educação estava apenas ao alcance daqueles que podiam pagar. Na verdade, uma colônia alfabetizada não se encaixava nos planos econômicos da Metrópole Portuguesa, e Uberaba seguia a regra.

Até então, as escolas primárias consistiam apenas em juntar alunos de diversas idades na casa do professor. Agora, os estudantes eram separados em classes para melhor aprender.
A tendência, no entanto, não se estendeu à educação pública. As escolas isoladas continuavam sendo a única alternativa para as crianças pobres, nesse período, e as iniciativas, além de raras, só ofereciam "as primeiras letras". "A Câmara era precária e não tinha condições para manter muitos professores. Os recursos eram escassos, chegando ao ponto do Frei Eugênio tomar a iniciativa de promover o calçamento de rua na cidade", acrescenta Bilharinho.

Mas a participação mínima do setor público parecia não atrapalhar o crescimento de Uberaba. O comércio sobreviveu a um longo período de recessão e deu boas-vindas ao trem de ferro, no fim da década de 1880. Os trilhos da Mojiana marcam o início de uma nova fase, principalmente no setor industrial. Trazendo na bagagem qualificação profissional e tecnologias de ponta, os imigrantes europeus introduzem no mercado fábricas de refrigerante, macarrão, couro, fumo e cigarros, padarias, alfaiatarias e cervejarias.

Precedendo essa guinada econômica, o governo estadual decidiu contribuir com a formação de professores na cidade e abriu a primeira Escola Normal Oficial. A instituição oferecia curso gratuito de Magistério para jovens de ambos os sexos, o que não foi bem visto pela sociedade na época. Ainda era inaceitável que as moças de família estudassem com os rapazes. Os pais que não tinham educadoras especiais à disposição preferiam manter as filhas confinadas em casa a mandá-las para a escola pública mista. "A preocupação em fundar um colégio só para meninas levou as autoridades religiosas a insistirem na instalação das irmãs dominicanas na cidade", conta a historiadora Maria Antonieta Borges Sampaio.

Instalada no Brasil desde o início dessa década, a missão dos padres dominicanos e o bispo Ponce de Leão trabalharam com persistência para a vinda das irmãs. Elas aceitaram o desafio, em 1885, e começaram a se preparar em Portugal, onde ficaram três meses, para aprender a língua nativa. Enfrentaram 23 dias de viagem de navio até o Rio de Janeiro e, depois, embarcaram na maria-fumaça para chegar a Ribeirão Preto, pois a linha férrea ainda não estava estendida para Uberaba. No restante do percurso, o grupo agüentou oito dias de solavancos em carruagens e cruzou o terreno irregular do cerrado em meio à poeira e ao calor. A instalação do colégio também não foi fácil. As seis irmãs fundadoras começaram as atividades de forma improvisada, no prédio da Santa Casa, com apenas dez alunos bolsistas. Surgia o internato conhecido até hoje pelo nome de Nossa Senhora das Dores.

A sede ficou pronta apenas dez anos depois. A partir daí, além de alfabetizar, as irmãs passaram a se dedicar ao Ensino Secundário e à formação de professoras. As alunas também aprendiam pintura, canto, música e, obviamente, religião. Não demorou muito para atrair jovens de cidades vizinhas, como Sacramento, e do interior de Goiás e de São Paulo. Dado o sucesso, era hora de buscar o reconhecimento do governo e o título de colégio equiparado ao padrão dos Institutos Normais do Estado. O registro correu sem complicações, inclusive porque o curso gratuito de Magistério fechou, pouco depois da chegada das irmãs dominicanas.

Para Rosângela Guimarães, professora de História, a relação entre os dois fatos não seria mera coincidência, pois o apoio dado às escolas particulares evidenciava o interesse da administração pública em economizar dinheiro. "Com a equiparação do Nossa Senhora das Dores, as pessoas continuam tendo o serviço e o Estado não precisa gastar para manter uma escola na cidade. Essa era a justificativa. Pelo menos, as escolas privadas tinham que oferecer algumas vagas para as estudantes de famílias pobres, em contrapartida à ajuda do governo. O CNSD usou muito o serviço dessas meninas em troca de estudo; eram as chamadas martinhas", analisa.

Praticamente ao mesmo tempo, as autoridades religiosas também começaram a trabalhar alternativas para atender os rapazes. Vários pedidos foram enviados aos irmãos da Ordem Marista, por volta de 1890, mas o quadro de educadores era insuficiente para abrir cursos em outros países. A missão francesa só colocou os pés em solo brasileiro sete anos depois, em Congonhas do Campo.

Uberaba deveria ter sido a pioneira no território verde-amarelo, mas o projeto consolidou-se atrasado, em 1903, por causa de um imprudente erro de comunicação. Os dirigentes da ordem chegaram a escrever para Dom Eduardo Duarte da Silva, porém a carta parou nas mãos do vigário-geral Ignácio Xavier Silva e acabou indo para a lixeira, antes de ser encaminhada ao chefe do bispado. Para Ignácio, a iniciativa não era conveniente, porque os religiosos franceses desconheciam a língua local. Conforme o "causo" registrado no livro História dos Irmãos Maristas, do historiador Pedro Coutinho, o bispo apurou o ocorrido e conseguiu reverter essa situação.

Apesar da duvidosa apresentação, o Colégio Marista já somava 150 alunos no primeiro ano de funcionamento e as matrículas cresceram tanto que, em 1908, os dormitórios não tinham espaço para todos os alunos. Jovens de todo o "sertão" enfrentavam dias ou até meses de viagem para aprender com os irmãos maristas, ainda mais porque a escola já tinha sido equiparada aos institutos de ensino da capital. Os rapazes saíam com conhecimento em francês, latim, álgebra, geografia e até inglês no currículo. Prontos para ingressar nas faculdades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Começava assim a ser descoberta a vocação da Princesinha para centro estudantil. 


O saber que vem de graça

Enquanto a elite se tornava mais intelectualizada, ficava também evidente a decadência da educação pública.
O Brasil dera à luz ao regime republicano e comemorava a virada do século, mas a maioria das crianças de origem pobre ainda não tinha experimentado nada parecido com o sistema de ensino das dominicanas ou dos maristas.

Até então, o governo disponibilizava recursos apenas para custear o trabalho de professores que recebiam em casa turmas com estudantes de diversas idades. O Estado pagava quatro educadores e dois eram mantidos pelo município. Se os ambientes de aprendizagem pareciam poucos, os incentivos para as famílias de baixa renda também não ajudavam. Livros, cadernos, uniforme e todo o restante do material eram por conta dos pais. Sem contar que o trabalho infantil era comum na época.

Mas a situação começaria a mudar após a primeira Constituição Republicana, de 1891. O documento manteve a proibição do voto de pessoas analfabetas, o que praticamente inviabilizava a manifestação da vontade popular num país onde somente 20% dos habitantes sabiam ler e escrever.

A legislação federal, entretanto, trazia poucos artigos sobre a educação. Então, as autoridades políticas estaduais encabeçaram o movimento para democratizar o ensino e decretar a abertura de grupos escolares conforme os mesmos moldes já aplicados na Europa e nos Estados Unidos. São Paulo foi o primeiro a implantar a escola seriada na rede pública, exemplo seguido por outros governos, como Minas Gerais.

A lei assinada pelo governador João Pinheiro mal tinha saído do forno, em 28 de setembro de 1906, e os vereadores já estavam discutindo o assunto um dia depois, na Câmara de Uberaba. Queriam não só a escola primária, mas também um instituto de Ensino Técnico Agrícola. Os projetos, no entanto, esbarraram no interesse do Estado e do município em economizar.

Grupo Escolar BrasilSegundo Rosângela Guimarães, pesquisadora da história do Grupo Brasil, o Estado queria que as prefeituras doassem os prédios para a instalação das escolas enquanto, já os políticos de Uberaba, apesar de dispostos a contribuir, estavam propondo um orçamento apertado para a obra. O edital de licitação chegou a ser lançado, mas as empreiteiras não
aceitaram o preço e a forma de pagamento, em três parcelas. Por fim, a construção do grupo foi para a gaveta. "Revogou-se essa parte da lei e, no lugar, os vereadores solicitaram a instalação de oito escolas isoladas e mantiveram o pedido por um instituto agrícola. Para eles, o município precisava mais de gente que entendesse de terra do que de pessoas com ensino humanista", lamenta.

Felizmente, a proposta logo foi retomada. Ano novo, Câmara nova e idéias frescas levantaram novamente a bandeira da criação do grupo escolar. Eleito vereador, Felipe Aché conduziu as negociações com o colega partidário João Pinheiro e conseguiu um empréstimo do Estado para construir o prédio. O montante seria devolvido mais tarde, em prestações. Conforme Rosângela, artigos do memorialista uberabense Hildebrando Pontes indicam que o governo estadual resolveu não colocar obstáculos devido ao movimento separatista, que Uberaba ameaçava liderar.

Depois de tantas articulações, o Grupo Escolar Uberaba, hoje Escola Estadual Brasil, abriu as portas em 1909, acompanhando a estréia dos palacetes do auge do zebu. O local abrigava meninos e meninas, em horários separados, oferecendo ensino de primeira à quarta série. Existia até mesmo um caixa escolar para ajudar os pais com a compra de uniformes, calçados e livros. Bastava fazer o pedido na hora da matrícula para receber a doação.

A inovação parece ter dado ânimo para o Estado investir, já que, dez anos mais tarde, o governo reativou a Escola Normal Oficial. Além do dinheiro para o funcionamento do curso de Magistério, foram liberados recursos para a construção de uma nova sede, projetada pelo arquiteto Oscar Niemayer. As aulas foram transferidas em 1959 para o prédio que abriga hoje a Escola Estadual Marechal Castelo Branco. Outras duas escolas estaduais foram criadas na época e repassadas, tempos depois, para as mãos da Prefeitura, recebendo o nome de Escola Uberaba e José Marcus Cherém.

Já a rede municipal só começou a crescer na primeira gestão do prefeito Hugo Rodrigues da Cunha. Oito unidades foram abertas nos anos 70, inclusive escolas para atender a zona rural, ou bairros, que eram apenas grandes fazendas naquele tempo. Mais uma barreira estava superada e, finalmente, existia ensino básico para o povo.


 A princesinha do sertão de beca

 

 

Depois de se aventurar nessa longa jornada, Uberaba experimentava maturidade econômica e social para uma nova conquista: o Ensino Superior. A abertura de faculdades seria um atrativo para manter os estudantes na cidade e consolidar o mercado local, em vez de perder consumidores para os grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro e São Paulo.

A primeira tentativa se deu em 1896, quando energia elétrica, água encanada, calçamento de rua e praças urbanizadas ainda eram um faz-de-conta por aqui. Como já corria a notícia sobre a expansão dos trilhos da Mojiana, o governo de Minas investiu na criação do Instituto Zootécnico. A meta era aprimorar a produção agrícola e oferecer mercadorias que lotassem os vagões do trem de ferro. Dois anos depois da inauguração, no entanto, o curso foi fechado, em represália aos fazendeiros da região. "Organizados no clube da Lavoura e Comércio, eles protestaram contra o imposto territorial cobrado pelo governador Silviano Brandão. Aí, ele mandou desativar o instituto por telegrama", resume Guido Bilharinho.

Só uma turma de oito engenheiros agrônomos conseguiu o diploma no instituto, mas, pelo menos, o tempo foi suficiente para revelar a aptidão do ecossistema ao zebu. A descoberta esquentou a economia a partir da década de 20 e os palacetes comprovavam a abundância de dinheiro na praça. Havia mercado, então, para os serviços da Escola de Odontologia e Farmácia, como também para a Faculdade de Direito, ambas particulares. As matrículas iam bem. Pena que o funcionamento estava irregular e as atividades foram encerradas, por ordem do governo federal.

Seria lógico analisar que as faculdades acompanharam a ascensão da pecuária zebuína em Uberaba, porém aconteceu o inverso. O verdadeiro boom é observado somente a partir da década de 50. O Banco do Brasil suspendeu o crédito e vários fazendeiros estavam quebrados depois de investir todas as economias em cabeças de gado. Passava da hora de diversificar a economia. "A alternativa era capacitar mão-de-obra para prestar serviços como médico, dentista, advogado ou outras profissões", explica a historiadora Maria Antonieta Borges Sampaio.

Nessa virada, surgem as primeiras escolas técnicas do sistema S (Senai e Senac) e os colégios Oswaldo Cruz e Nossa Senhora das Graças. Mário Palmério também abriu as portas do Liceu Triângulo Mineiro e começou a preparar os estudantes para ingressar na faculdade. E não parou por aí. Pouco depois, lançou a Escola Técnica de Comércio e os primeiros cursos superiores de Odontologia, Direito e Engenharia, que seriam incorporados a Fiube mais tarde. A vocação para o ensino corria no sangue da família Palmério, segundo a diretora do Arquivo Público de Uberaba, Lélia Bruno Sabino. "As tias lecionavam, o pai e o próprio avô dele. A família tinha tradição no ensino".

Paralelamente, as irmãs dominicanas aumentaram o leque de opções e ofertaram cursos de Filosofia, Geografia, História, Pedagogia e Letras na saudosa Faculdade de Filosofia Santo Tomás de Aquino (Fista), que mais tarde seria incorporada por Palmério e daria origem à Universidade de Uberaba (Uniube).

Os fazendeiros não ficaram para trás e se mobilizaram através da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (hoje Associação Brasileira dos Criadores de Zebu) para fundar uma faculdade destinada a formar profissionais que trabalhassem com o gado de elite e melhoramento genético: a Faculdade de Zootecnia de Uberaba (Fazu), hoje Faculdades Associadas de Uberaba. No comércio, os esforços culminaram na criação da Faculdade de Ciências Ecônomicas do Triângulo Mineiro.

UFMTMRestava apenas um desejo a realizar: a criação da Faculdade de Medicina. E as preces foram atendidas em 1954, por iniciativa de Juscelino Kubitschek.  O curso surgiu particular, mas movimento encabeçado pelos alunos convenceu o governo a federalizar a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM) em 1969.

Essa mobilização estudantil não foi um fato isolado. Diante da efervescência cultural da cidade e do próprio quadro político nacional, várias organizações se levantaram contra o regime militar. A Juventude Universitária Católica (JUC), formada por acadêmicos da Fista, foi um dos mais fortes militantes da época. A União Estudantil Uberabense (UEU) e o Diretório Central de Estudantes (DCE) também marcaram a resistência contra a ditadura, dando suporte à Ação Popular liderada por Gildo Macedo Lacerda.

A terra do zebu começava, assim a revelar novos talentos e oportunidades, mostrando vontade de aprender e ensinar diferentes disciplinas. É um campus perfeito para acolher e acolheu importantes instituições de Ensino Superior, incluindo a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).






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