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Gilberto Caixeta - 21/08/2012

Procisses e Carreatas

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Temos carreatas o ano inteiro, de todos os tipos, de padrões diferentes, alegres e tristes. O que há de comum entre elas é que todas atrapalham. Quase ninguém gosta de se deparar com carreatas, elas atrapalham o fluxo natural urbano. Elas são expressões do esnobismo humano, estratégia de apresentação de um produto, fonte de orgulho e de fé, mas pode também ser de adeus. Quando nos deparamos com uma, fechamos a cara. A pior carreata é aquela de época de eleição, é um rabo que não acaba mais. Como a política repete o futebol, há os que amam e os que odeiam, sendo essas carreatas mais acaloradas e menos legais. Quem entra numa carreata política externa o seu voto e está pronto para o embate. Tenho dúvidas se as carreatas deveriam continuar a vingar no espaço urbano, que já é todo congestionado e conturbado. Talvez fosse interessante levar para um lugar ermo onde lá as pessoas fariam a sua carreata, demonstrando o seu apreço ao seu candidato. Proposição ridícula sob a perspectiva política, porque a finalidade da carreata é conturbar e se apresentar aos munícipes; então, que regulamentem a carreata. Outra forma de carreata são as religiosas. Coloca-se a Santa à frente e segue-se pelas ruas da cidade, os carros atrás e um líder religioso pedindo glórias à Santa. Aí a Santa, que passa na frente, vai abrindo o caminho e abençoando aqueles que param em seu louvor. Geralmente, ninguém critica essa forma de carreata, exceto os que não comungam do mesmo ritual religioso. Há passeatas apresentando um produto a ser lançado no mercado por uma loja, ou apresentação de prêmios a serem sorteados ou adquiridos para a prestação de serviços. Administradores públicos, inspirados em suas carreatas políticas, adoram apresentar as aquisições feitas durante o seu mandato desfilando com os aparelhos públicos pelas ruas da cidade. Procissões inspiraram as carreatas. As procissões são carreatas humanas deslocando pelas ruas em louvor ou em cumprimento de promessas devido à graça merecida ou alcançada. Havia, antigamente, as procissões para levar o defunto para o cemitério. Ele era carregado dentro de uma rede e os seus amigos e familiares seguiam em fila louvando o Divino para que recebesse aquela alma bondosa, mesmo que não fosse. Nesta época, a igreja era comprometida com os coronéis e pouco se importava com o povo, exceto com os seus temores e as suas ameaças. As procissões sobreviveram e as carreatas apareceram com os seus inconvenientes e chatices até mesmo para seus participantes. Toda carreata tem batida, buzinação, atropelos, ilegalidades... Um dia você acabará participando de uma. A carreata fúnebre, aquela em que o féretro vai à frente e os amigos e parentes vão atrás, em silêncio, com sofrimento e angústia, é a não querida por todos. Como da morte não se pode escapar, deveríamos, então, escapar das carretas, inclusive e necessariamente das fúnebres.

 

(*) Professor
gilcaixeta@terra.com.br




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