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Padre Prata - 20/08/2011

Não há como se livrar do lobo

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Lá pela década de trinta, quando estudava latim, traduzíamos as fábulas de Esopo, mais tarde reformuladas por La Fontaine. Eram estorietas aparentemente infantis que revelavam uma verdade moral. Seu valor continua importante até hoje. Numa crônica de semanas atrás comentei o “O corvo e a raposa”. Recebi um e-mail do Dr. José Raimundo Gomes da Silva, Procurador do Estado de São Paulo, que muito me honrou. Fez um pedido. Que eu comentasse a fábula “O Lobo e o Cordeiro”. Comentar o quê? Não sei como viviam os lobos no século VI (A.C.). Muito menos os cordeiros. Lembrei-me, então, de Maquiavel (“Nada é imoral quando se trata do poder”). É isso aí, meu amigo, o homem é sempre o mesmo, desde o primeiro (que não sei quem foi) até o último, que não sei quem vai ser. Os lobos (o poder) e os cordeiros (o povo) vivem os mesmos problemas: opressor e oprimido.

Aquele cordeiro não deveria ter ainda um ano. Ao se inclinar para beber água, ouviu um rosnado estranho. Numa rampa a cinco metros acima, um imenso animal. Aqueles caninos enormes por onde escorria uma baba pegajosa o assustaram. “Olha o que você está fazendo, seu mequetrefe de uma figa. Não vê que está emporcalhando a água que eu vou beber?”

 “Primeiramente, eu gostaria de saber quem é o senhor, respondeu o cordeiro educadamente. Eu nunca o vi por essas bandas. Em segundo lugar, meu pai é pobre, mas leu uns livros sobre dinâmica e me ensinou que água não sobe de morro acima. Como posso sujar sua água se eu estou do lado de baixo?”

O lobo se eriçou todo, grunhiu raivoso e revidou: “Escute aqui, seu merdinha, não lhe devo explicações. Que dinâmica é essa? O que seu pai ganhou com isso? Nada. É um pobretão que anda por aí lambendo embira. Quanto a mim, sou um lobo, um lupus caninus, da família dos canídeos, parente dos cachorros, embora não seja um deles. Sou atualmente um ministro de estado, pertenço ao poder. Eu mando. Ah! O poder! É algo de inebriante. Você consegue o que quer. Temos um acordo tácito de um não se preocupar com o que faz o outro. Agimos livremente. Somos senadores ou deputados e de altos empregos no governo da Nação. Você é gentinha. Nunca estudou. Nunca leu Maquiavel. Ele nos ensinou que, para manter-se no poder, tudo é permitido. Se ficamos com a metade do orçamento, isso é compreensível, temos a alta preocupação em dirigir a República. Somos responsáveis pelo andamento da máquina ministerial. Temos responsabilidade. Se dois quilômetros de estrada asfaltada são orçados em dois milhões,

pedimos seis e ficamos com o resto, como gorjeta oficial. O povo paga. Não existem os impostos? Seu pai paga, seu avô, seu padrinho, todos vocês, ó massa ignara. A obrigação do povo é pagar e ficar quieto. Isto não é roubo, é o preço de nossa responsabilidade. Somos gente séria. (Lambeu a beiçarra).  Agora, aqui muito entre nós dois, vou te contar um segredinho: adoro carne de carneiro.”

Dizendo isto, começou a descer a rampa, babando. Não se ouviu um grito, apenas um gemido e o barulho da água que corria tranquila, manchada de vermelho.

 

(*) Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro
thprata@terra.com.br




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