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O juiz recebeu em seu gabinete um maduro casal visando à separação. Algo incomum

10/11/2018 - 00:00:00. - Por Ricardo Cavalcante Motta

O juiz recebeu em seu gabinete um maduro casal visando à separação. Algo incomum, ele com sessenta anos, ela dois a menos. Tinha o dever de tentar a reconciliação. Falava antes com a mulher porque sabia que quando a intenção da separação nascia desta era remota a chance de retratação. Naquele tempo, as mulheres eram ainda mais oprimidas. Quando conseguiam chegar àquele ponto já estavam bem resolvidas. Questionada em particular quanto a possibilidade de reconciliação, respondeu com um firme e sonoro não. Explicou. Há anos, muito jovem, fui praticamente coagida por minha família a me casar com ele. Forte pressão moral. Sucumbi. Apesar de ser homem reto não era da minha afeição feminina. Ardilosamente fui induzida. Ele gosta de mim, de modo até obsessivo. Isto contribuiu para ser cúmplice do meu aprisionamento. Conspiraram. Reduziram todo o meu espaço de conviver, comparar... Somente ele poderia ser o parceiro adequado! Na lida normal, duas filhas. Madura, tomei consciência. Agora, meritíssimo, filhas já casadas. Resolvi. Não quero mais essa vida de aparência. Marido postiço. Embora sempre teve meu respeito, sabia que eu não o amava. Jamais o iludi. Mesmo assim prendeu-me pelo seu egoísmo. Fim. Não vou mais ceder a essa sociedade machista. Até minha mãe foi machista! Vou me libertar. O marido, quando ouvido, quase implorou pela intervenção do juiz para convencer à manutenção do vínculo. Sem êxito. Dois meses após divorciados, ele foi acometido de doença grave. Magoado, em sua enfermidade havia uma recomendação: qualquer visita, menos da ex-mulher. Para ela, intimamente, foi um alívio. Afinal, ele sucumbia com um sopro sugestivo de que ela era a culpada de seu infortúnio. Via nele o seu algoz, tirano disfarçado que castrou sua vida. Foram anos de submissão. Não fraquejou. Através das filhas desejou sinceras melhoras. Passado um biênio da morte dele, encontrou, ao acaso caprichoso da vida, sua verdadeira paixão desde a adolescência. Nunca mais o vira. Estava solteiro e solitário. Lamentou não ter reagido antes. Confessou que jamais se afeiçoou a outro alguém. Em si havia sempre acesa a oculta flama daquele amor que foi desviado. Uniram-se e viveram juntos por vinte anos ainda. Amou de verdade. Encontrou, enfim, a autoestima da íntima felicidade de ser mulher em si mesma. Liberdade ainda que tardia.

(*) Juiz de Direito

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