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Uberaba, 15 de novembro de 2018 -

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Quanto vale um operário

Ele é da família dos dasipodídeos. Reproduz por poliembrionia. Alguns são polífagos

13/10/2018 - 12:15:59. - Por Padre Prata Última atualização: 15/10/2018 - 07:06:42.

Ele é da família dos dasipodídeos. Reproduz por poliembrionia. Alguns são polífagos. Toda esta complicação é para mostrar-nos as características familiares de nosso conhecido tatu. Pelo menos é o que nos ensina o dicionário do Aurélio.

Sei que parece ridículo estar escrevendo aqui sobre esse animalzinho. É um bichinho inocente e não está em extinção. De tão feio é até bonitinho.

Perdoe-me o lado cômico da questão. O que eu gostaria de comentar é um episódio acontecido tempos atrás e comentado pelos jornais da época. Foram envolvidos um operário, vários policiais e um tatu. O operário, Carlos Batista, depois de oito horas de batente, voltava para casa. Com fome, pedalava sua bicicleta, provavelmente pensando na insuficiência de seus dois mínimos para sustentar seus filhos.

Sem que esperasse, um pequeno vulto atravessa-lhe o caminho. Era um tatu. Não conseguiu distinguir se era o comestível tatu-galinha ou se era o tatu-bola, o cascudo ou o peba. O que passou por sua cabeça foi a visão de um bom prato para o jantar. Chegou a sentir o cheiro da vianda. Não foi difícil pegar o bichinho. Como disse o jornal, ele estava “manquiltolando”. Não consigo imaginar um tatu manquitolando, mas isto não importa. O certo é que, naquele momento, o operário e o tatu ficaram famosos. Iriam para os jornais. Por coincidência, havia policiais por perto. Ambos foram presos. O Carlos, com suspeita de atropelamento. O tatu, como vítima inocente. Além do mais, a vida dos bichos é garantida por um artigo da Lei 9065/98, que protege os animais. Lei é lei (Às vezes...). Assim sendo, o tatu entrou como corpo de delito.

Surgiu, então, um problema da mais alta jurisprudência: o tatu foi morto ou já estava morto? Para dirimir tão grave questão, o tatu foi levado a um veterinário. Examinado em sua complicada anatomia, concluiu-se que o animal foi morto a pauladas.

O resultado de tão plangente drama foi ter o tatuicida levado a pior. Perdeu o jantar, foi multado e ameaçado de seis meses de prisão. Para o pobre, “lei é lei”.

Por um imperdoável lapso, a reportagem não disse o que foi feito do tatu. Embalsamado? Enterrado? Cremado? Alguém o comeu? São indagações da mais alta relevância, levando-se em conta o preço da carne e a importância desse animal no equilíbrio ecológico. Matar um tatu no meio da rua é pôr em risco o ecossistema do Planalto Central. É crime.

Comicidade à parte, o episódio seria apenas ridículo se não revelasse uma significativa inversão de valores. Supervalorização do irracional e desvalorização da pessoa humana. O bicho sai como vítima, o operário como injusto agressor. Como criminoso. 

Não dá para entender. Nem para aceitar.

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