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Ficar sozinho dói muito

Já faz algum tempo fui chamado para atender a um doente num dos hospitais da cidade

18/08/2018 - 10:30:05. - Por Padre Prata Última atualização: 18/08/2018 - 10:30:14.

Já faz algum tempo fui chamado para atender a um doente num dos hospitais da cidade. Havia quatro pacientes na enfermaria. Ao sair, um deles me chamou: “Padre, eu também quero uma bênção”. Era uma senhora de rosto róseo e olhos azuis e tristes. Estava deitada numa cama de lençóis muito brancos, confundindo com seus cabelos. Falei com ela sobre a ternura de Deus, sobre a esperança e confiança no Pai e de como era bom ter a certeza de sermos amados por Ele. Dei-lhe a bênção e me despedi. Ela segurou minhas mãos. Duas lágrimas brotavam de seus olhos tristes. Suas palavras nadando em dor brotaram lá do fundo de sua alma: “Padre, fica comigo mais um pouquinho. Estou sozinha. Ninguém vem me ver”. (Entendo hoje a afirmação de um teólogo: “O inferno não é um lugar, é um estado de espírito, é a ausência de Deus, a pior de todas as solidões”.)

Cresce em mim, a cada dia, a impressão de que o número daqueles que se sentem sozinhos está aumentando. O progresso da eletrônica vai, aos poucos, levando o homem para a solidão. Para muita gente, o controle remoto é o mais importante companheiro de sua vida. Cercamos nossas casas com arame farpado, com fios eletrificados, espias televisivos, grades, tudo isso para avisar aos invasores potenciais que estamos alertas. Não sei se tantas preocupações nos fazem mais felizes. Na realidade, vamos ficando cada vez mais enclausurados dentro de nós mesmos. As coisas vão perdendo o sentido. Lembro-me, então, de Santo Agostinho. Há mais de mil anos, ele escrevia: ”Meu coração está inquieto, Senhor, até que ele repouse em Ti”.

A pior solidão é perder o sentido de Deus, de sua presença. Infelizmente, fabricamos um Deus a nossa imagem e semelhança, um Deus colocado a nosso serviço, um Deus a quem recorremos somente para pedir, enquanto nos esquecemos de seu Projeto de Vida, de criar em nós um ambiente de paz e de amor. Fazemos de Deus um dono de farmácia onde só entramos para procurar remédio para algum mal.

É bom, de vez em quando, lembrarmo-nos de que não temos aqui na terra morada definitiva. Nossa pátria é outra. Somos caminheiros.

Guardei comigo um dos últimos escritos de Saint-Exupéry: “Deus, dá-nos a paz das colheitas terminadas, já estou cansado das lutas de meu coração. Sei que um dia chegarei à paz. Abrirei meu caminho sem compreender. Simplesmente... irei”.

 

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