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A soma dos lados

Antigamente nas escolas era assim: quatro anos no primário, quatro no ginasial

18/08/2018 - 10:28:45. - Por Márcia Moreno Campos Última atualização: 18/08/2018 - 10:29:14.

Antigamente nas escolas era assim: quatro anos no primário, quatro no ginasial, três no científico ou seu equivalente, o curso Normal, e depois prestava-se vestibular para entrar em alguma faculdade. Do primário para o ginasial os alunos passavam por um minivestibular para ser admitidos em um colégio. Para tanto, faziam um curso preparatório, que era chamado de Admissão. Eu estudei em escola pública, o Grupo Brasil, e fui prestar as provas para entrar em um colégio particular e cursar o ginasial. As duas primeiras, de Português e Matemática, eram eliminatórias e eu passei na primeira e fiquei na segunda, a de Matemática. Quando ouvi a lista dos reprovados, e eu nela incluída, não acreditei, já que sempre fui boa aluna e me considerava bastante preparada. Chorando, voltei para casa. Meu pai, um comerciante que nunca cursou faculdade, saiu em minha defesa e se dirigiu ao colégio para pedir vista de prova. Eu tinha 10 anos na época. Bastou meu pai bater o olho na primeira questão com um grande X, por apresentar resposta errada, segundo os examinadores, e ele disse: esta resposta está correta. Eis o problema: calcule o perímetro de um quadrado cujo lado mede 8cm. Como resposta, após fazer as contas no próprio corpo da prova, escrevi 32cm. Consideraram que a resposta certa era 64cm², que é na verdade a área e não seu perímetro, este a soma dos lados. 

A briga foi grande. A professora de matemática foi chamada e, desafiando meu pai, reiterou que minha resposta estava errada. Chegou então minha professora de Admissão, saudosa Adília Novais, que, diante do fato, alegou que rasgaria seu diploma se minha resposta não estivesse certa. A confusão durou horas e só teve fim com a chegada do corpo superior da escola, que, pedindo desculpas ao meu pai, considerou minha resposta correta e mandou que as professoras me aplicassem no dia seguinte as provas que eu tinha perdido. 

Por que escrevo sobre isso? Primeiro porque não queria que esse acontecimento ficasse restrito apenas, como tem sido, aos meus familiares. Evidente que naquela época não existiam internet, Facebook e WhatsApp. Segundo, como um reconhecimento ao meu pai, que enfrentou pessoas gabaritadas com a simplicidade e a confiança de um verdadeiro pai em uma filha. Quando amigos o aconselharam a não me colocar nesse colégio devido a esse episódio que poderia me causar problemas lá dentro, ele me disse, serenamente, para eu ir e enfrentar de cabeça erguida, pois ele acreditava em mim. E por último, porque acho que ainda hoje poucos sabem a diferença entre perímetro e área, questão que foi decisiva na minha formação.

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