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Uberaba, 23 de outubro de 2018 -

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Sentimental, nasceu numa família mais voltada para uma convivência objetiva

- Por Ricardo Cavalcante Motta Última atualização: 26/05/2018 - 20:45:09.

Sentimental, nasceu numa família mais voltada para uma convivência objetiva. Por isso foi ficando psicologicamente fragilizado pela frieza das relações. Sentia muita falta de afeto. Sofria quieto. Aos poucos foi se perdendo da sintonia da vida com os familiares que o achavam esquisito, sem a menor percepção da sua carência pessoal. Por isso era considerado algo demente. Tinha um comportamento fora do padrão do grupo. Foi sendo deixado de lado. Saturou e saiu de casa. Ganhou as ruas de uma metrópole, onde passou a habitar. Andava só, vivendo de sobras. Sentia-se carente de afeto, mas ali não sofria largado pelos convivas. Afinal, não os conhecia. Certa feita adormeceu sob um abrigo e ao acordar tinha ao seu lado um cão de rua, que o lambia carinhosamente, manifestando sinal de afeição. Retribuiu o afeto e a amizade foi selada. Ele recebia e doava todo o carinho e atenção possíveis em permuta com o cão. Tratava o animal com o maior zelo que pudesse. Tornou-se fanático pela convivência com o bichinho, que o destinava sentimento reflexivo. Não se largavam. Até que, infelizmente, certa feita o cão morreu. Foi subitamente atropelado. Ele ficou depressivo e extremamente abatido pelo fato. Chorava, sofria. Perdeu sua única fonte de afeto, tão carente que era. Até delirava de saudades. Contudo, numa ocasião adormeceu e novamente ao despertar ao seu lado estava outro cão de rua. Parecia faminto. Tinha um pão consigo e o ofertou ao cão que avidamente o comeu, aproximando-se abanando o rabo. Foi então que mirou nos olhos deste cão e notou um olhar vinculante, brilhante, amigo e especialmente afetuoso. Estalou os dedos e o cão aproximou-se. Trocaram agrados, acariciou o cão e nova relação foi selada. Logo esqueceu-se da falta daquele cão falecido. Suprida a carência, seguiu feliz como d'antes, até nova sucessão, talvez.

(*) Juiz de Direito

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