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Padre Prata - 20/05/2018

Hoje seu dia tambm

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No último domingo, os jornais e revistas enalteceram o dia dedicado à mulher. Exaltaram sua dignidade. Elogiaram sua beleza. Lembraram de seus atos heroicos. Louvaram a luta pela sua emancipação. Seus retratos coloriram as páginas dos diários. Lindas! Exibiram suas roupas. Comentaram suas viagens internacionais. Orgulharam-se de sua cultura. Provocaram invejas suas suntuosas mansões.

Ao refletir sobre glórias tantas, lembrei da oração de uma cozinheira negra. Tenho-a guardada em meus arquivos, copiada não sei mais de onde. O dia de festa era dela também. Gostaria que você percebesse a grandeza do espírito que brota de suas palavras. Leia:

“Senhor, dono das panelas e das marmitas! Não posso ser a santa que medita aos vossos pés. Não posso bordar toalhas para o vosso altar. Então que eu seja santa ao pé de meu fogão. Que o vosso amor esquente a chama que eu acendi e faça calar minha vontade de gemer a minha miséria. Eu tenho as mãos de Marta, mas quero também ter a alma de Maria. Quando eu lavar o chão, lave também os meus pecados. Quando eu puser na mesa a comida, coma também, Senhor, junto conosco. É ao meu Senhor que eu sirvo, servindo minha família”.

Sua bênção, Maria Penido, negra lá da fazenda onde vivi minha infância. Sem dentes e não se envergonhando de um imenso bócio que lhe enfeitava o pescoço. Dia 13 de maio foi seu dia também.

Sua bênção, Maria do Antônio, que lavava minhas roupas e, carinhosamente, me chamava de Tomazinho. Meus parabéns. Dia 13 de maio foi seu dia também.

Sua bênção, Olésia, esposa do João Picão. Gorda, imensa, bebia sem parar o café por minha mãe deixado no rabo do fogão. Não se envergonhava de seus peitos enormes como duas negras melancias se entornando até à barriga. Dia 13 de maio foi seu dia também.

Sua bênção, Maria Luíza, “ajuntada” com o Zé Carreiro. Negra despachada, de muita conversa e pito de palha constantemente pendurado no canto da boca de dois ou três dentes e muito beiço. Meus parabéns. Dia 13 foi seu dia. Vocês ainda moram em meu coração.

Hoje, estão todas na Casa do Pai. Sei que se lembram de mim. 

(*) Membro da Academia de Letras do Triângulo de Letras
thprata@terra.com.br




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