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Uberaba, 19 de setembro de 2018 -

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La Fontaine em Brasília

Meu ilustre senhor, é um prazer vê-lo aqui. Encontrar um personagem de tão alta envergadura

- Por Padre Prata Última atualização: 11/03/2018 - 14:01:39.

“Meu ilustre senhor, é um prazer vê-lo aqui. Encontrar um personagem de tão alta envergadura é um privilégio. Sou apenas uma raposa desse tórrido cerrado”.

Empoleirado no galho de um alto jatobá, aquele urubu ouvia impassível à estranha saudação. Segurava em seu bico um embrulho. Seria um queijo? Sentada em suas patas traseiras, aquela raposa, com jejum de três dias, precisava comer.  Um sorriso maquiavélico enfeitava-lhe o focinho. Matreira, sabia, por secular experiência, que a bajulação era uma arma de efeitos certos. Por que não tentar?

“Meu ilustre senhor, há muito desejava este encontro. Conheço-o através de suas grandes realizações políticas. Sua fama o precede. Seu amor pelo bem do povo. Seus grandes projetos. Seu desapego pela fortuna. Sinto-me deveras honrada em vê-lo pessoalmente, ilustre senhor. Sua negra plumagem é o símbolo maior de nosso ouro negro, o petróleo”.

Um silêncio se fez. Eram os preparativos para o golpe final. Era preciso abrir-lhe o bico. Como fazer cair aquele apetitoso manjar? Pensou no golpe final, a bajulação. “Como V. Exª. deve saber, aprecio a ópera. Choro com a ‘Meditação de Thais’. ‘Carmen’ me enlouquece. Quem sabe V. Ex.ª poderia brindar-me com um trecho da ‘Traviata’? Cante, cante, ó Apolo negro de nossas matas. Um minuto apenas aliviará a tristeza soturna de minhas desventuras”.

Foi, então, que aquela ave, lá das alturas, segurou o petisco com uma das garras e assim falou:

“Primeiramente, minha senhora, quero fazer algumas retificações. Conheço bem as fábulas de La Fontaine e não nasci na França para bancar o otário. Segundo, não sou corvo, sou urubu mesmo, urubu não canta, apenas crocita. Terceiro, urubu não come queijo, como a senhora está pensando. Sejamos realistas. Sou um deputado, mais tarde um senador, depois um ministro. Olhe, minha senhora, deixe dessa besteira de bem do povo, de planos de saúde, de educação, de reformas disso e mais daquilo. Ainda             existem alguns que lutam contra as injustiças. Que valeu o esforço deles? Estão aí na pobreza. Fazer política não é fazer caridade. É ser realista. A política não é uma arte, é um emprego. Ninguém mais acredita naquelas tolices de Platão, de Montesquieu, de Locke e de outros otários. Quer coisa mais tentadora do que uma verba gorda, polpuda, dando sopa? Estou cansado de comer carne podre. Quero agora é me arrumar.”

Naquele justo momento aquele urubu realista soltou o pedaço de carne. Antes de alçar voo para as alturas, deixou bem claro: “Vai se distraindo aí com este pedaço de filé. Se eleito for, dar-lhe-ei coisa melhor. Por isso, conto com seu voto. Confie em mim, leia o programa de nosso partido. Você vai ficar sabendo de tudo o que pretendemos fazer. Mais escolas, mais hospitais, mais estradas, comida mais barata, milhares de empregos. Olhe lá, hein? Conto com sua ajuda. Fique certo de que nenhuma raposa passará fome. Já tenho um projeto de lei visando isso. Conte comigo”.

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