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Valdemar Hial - 11/11/2015

O Doutor e o Pistoleiro

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Aníbal Vieira, filho de Antonio Vieira de Andrade e de Maria José, era um garoto de boa índole, mas a atrocidade do mundo o levou para o caminho do crime.

Aníbal tinha três irmãos: Ubirajara, Moacir e Leonilda, todos nascidos lá pras bandas de Olímpia, minha terra natal. Leonilda era uma moça muito bonita, porém tinha problemas mentais e por isso merecia toda a atenção da família, principalmente do irmão Aníbal. A única diversão da menina-moça era ir até uma ponte de madeira, no rio Santo Antônio, esperar pela passagem da jardineira. Um dia, no mês de fevereiro de 1924, antes de a jardineira passar, cinco indivíduos vindos de São José do Rio Preto para uma pescaria e, completamente embriagados, vendo ali aquela inocente criatura, não tiveram dúvida, sequestraram e levaram Leonilda para uma estrada deserta e a estupraram. Após esse ato libidinoso, deixaram a moça num prostíbulo em Rio Preto. Os canalhas eram: Jerônimo (funcionário da Câmara Municipal), Martinelli (chofer de praça) e três policiais – Florindo, Sebastião e Gustavo.

Aníbal, com apenas 16 anos, adquiriu dois revólveres calibre 38 e partiu em busca dos algozes de sua irmã. Matou todos, dando início à vida de pistoleiro, desviando-se, talvez, de um futuro promissor.

Alguns anos depois, o filho de Aníbal adoeceu e precisava de uma operação urgente. Sua mulher foi até Olímpia procurar pelo Doutor Custódio Ribeiro de Carvalho, um grande médico-cirurgião. O Doutor Custódio era diretor da Beneficência Portuguesa. Nós éramos vizinhos. Todas as tardes, ele passeava com seu cachorro perdigueiro, dando volta na praça, em frente as nossas casas. Eu ficava olhando para aquela figura, quase divina, e pensava:

- Eu ainda serei um doutor como ele.

Voltando ao filho de Aníbal, conta o Doutor Custódio: “Sua mulher pediu-me que salvasse seu filho, mas que não tinha dinheiro para pagar o serviço. A criança foi operada, de graça; teve uma parada cardiorrespiratória e após algumas manobras o menino sobreviveu”.

Passados seis ou oito meses, numa véspera de ano novo, Dona Olga, esposa do Doutor Custódio, o acordou de madrugada, após ouvir batidas na porta da casa. Era Aníbal Vieira que tinha vindo agradecer a operação feita no filho dele. “Ele afirmou que eu tinha salvado a pessoa que mais amava e a única pela qual vivia. Contei, então, como foi a operação do menino; a luta para salvá-lo. Ele colocou as mãos na cabeça e disse: Se meu filho tivesse morrido, eu teria vindo aqui para matar o senhor, pois, naturalmente, iria pensar que o senhor teria deixado meu filho morrer porque não tinha meios de pagar.”




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