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Valdemar Hial - 18/03/2015

Da alquimia bomba atmica

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O sonho dos alquimistas, desde os primórdios da alquimia, era obter a “Pedra Filosofal”. Com ela, seria possível transmutar os metais inferiores em ouro e obter o “elixir da longa vida”, que prometia a eterna juventude, prolongando a vida indefinidamente - o homem correndo atrás da riqueza e da vida eterna. Mais uma vez, a razão deu lugar à ambição. Ora, se eles conseguissem transformar outros metais em ouro, é possível que esse metal nobre já não teria tanto valor. Houve até, quem propôs uma receita para transformar a prata em ouro:

“Misture as gemas de ovo com suas cascas moídas. Despeje a mistura num recipiente hermético e queime por 41 dias. Depois deixe o recipiente esfriar sobre as brasas de um fogo de serragem. Encontrará agora seus conteúdos transformados numa substância completamente verde. Ferva esse resíduo em água, e a solução vai evaporar, tornando-se água divina. Não toque nela com a mão, somente com um instrumento de vidro. Ponha a água divina num recipiente hermético e cozinhe-a por dois dias. Depois despeje os conteúdos numa concha, alise-os e exponha-os ao sol. A água engrossa numa substância untuosa. Derreta uma onça de prata, acrescente essa substância, e terá ouro”. Embora sendo uma receita de pura charlatanice, não deixa de ser um experimento. Provavelmente, aqueles que nos exploraram, levando daqui o nosso ouro, se soubessem dessa receita, jamais comeríamos omelete.     

A alquimia ocidental permaneceu sempre obcecada em fazer ouro. A alquimia chinesa, por outro lado, concentrou-se mais na medicina e na salvação, na busca da imortalidade - o “elixir da vida”. É fácil zombar dos objetivos que inspiraram a alquimia em seu desenvolvimento: riquezas, panaceias (remédios para todos os males), imortalidade. No entanto, essa é a prática que nos daria a química, a bioquímica e a farmacologia entre outros campos do saber.

Ao mesmo tempo em que a química evoluiu para salvar vidas, reunindo fórmulas e preceitos relativos à preparação de medicamentos, ela também evoluiu para destruir vidas. Em 1939, a descoberta da fissão nuclear revelou a possibilidade dramática de criar uma reação em cadeia com grande potencial explosivo e, ironicamente, essa transmutação trouxe-nos à beira da autodestruição – a fabricação da bomba atômica.

Fico imaginando os alquimistas, olhando para Hiroshima e Nagasaki destruídas, dizendo:

- Puxa! Nós só queríamos obter ouro e, o elixir da vida.  

(*) Membro Titular da Academia Mineira de Medicina, doutor em Ciências e professor emérito da Universidade Federal do Triângulo Mineiro




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