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CRÔNICA DO DIA
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CRNICA DO DIA
31/01/2018

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 Qual o valor de uma multidão?

Quando foi chamada, a resposta da multidão aconteceu de forma espetacular e indiscutível! Agora sua ausência causa surpresa! O que aconteceu? Houve alguma mudança significativa nas inclinações sociais brasileiras? Pelo contrário, todos estão fortemente enraizados em suas crenças, valores e motivações a ponto de abrir para um julgamento mais amplo.

As mudanças internas do homem são possíveis, mas difíceis. Em muitas situações acreditamos que ele se apresenta mesmo como intransigente: aquilo a que se apegou por tanto tempo e defendeu com tanta garra parece fazer parte do seu próprio Eu, mesmo que seja apenas um papel ou uma máscara representativa. Esta aderiu de forma total e penetrante que, se trocada, talvez leve consigo a própria pele e o sujeito se sentirá ferido e disforme.
Acompanhar as publicações nas redes sociais, os artigos jornalísticos referentes ao momento político brasileiro e as reações espontâneas da população, quando encontra os líderes em situações comuns sem as ritualizações e estruturas de segurança habituais, mostram-se inequívocas. As crenças estão mantidas e a divisão dualista facilmente reconhecida. Tivemos cenas de revolta e repúdio em relação a dois líderes de forte atuação totalmente conhecidas pela maioria que acompanha os canais governamentais. A primeira aconteceu com a senadora Gleise Hoffmann e a segunda, com o ministro Gilmar Mendes, quando tomaram assento em um avião de carreira e foram recebidos com vaias e sérias críticas à forma como atuam em suas respectivas casas. Há algum tempo a cena se repetiu com o Governador de Minas num shopping e com o ator José num restaurante. O ponto de ebulição está baixo e a simples presença deles, numa proximidade facilitadora, deu a oportunidade tão esperada de manifestarem sua própria opinião saindo de uma passividade indesejada, escutando em uma única via, uma vez que até então o acesso à palavra era só deles, o microfone não chega aos ouvintes cansados da distância que segura e assegura espaço de inverdades tornadas inquestionáveis pela simples impossibilidade do encontro. Estes têm se mostrado perigosos e a sociedade organiza espaços de contenção.

O vir-a-ser social não possibilita predição, pelo contrário, somente depois poderemos compreender a profundidade deste abismo divisório. No entanto, já podemos compreender a ausência das multidões: a judicialização processual tem transformado a máxima democrática do valor das maiorias porque é calada pela voz de um. O povo está sendo silenciado pela toga ou pela câmara que devia representá-lo – um ministro silencia uma multidão; uma senadora sobe ao púlpito e defende o indefensável, ou ainda apodera-se de uma tribuna ou mesa dirigente dos trabalhos da casa impedindo com seu próprio corpo decisões contrárias aos seus próprios interesses...

Ilcea Borba Marquez – psicóloga e psicanalista
e-mail – ilceaborba@gmail.com







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