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CRÔNICA DO DIA
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CRNICA DO DIA
13/01/2018

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 A Folia de Reis e sua Magia

Domingo, 7 de janeiro de 2018, ao chegar em casa após o almoço com meu marido, ouvimos o toque da campainha. Para nossa surpresa, era nossa vizinha, D. Vilma Carrijo do Carmo, que veio nos convidar para darmos uma “chegadinha” até sua casa, pois aguardava a visita da Companhia de Reis “Caravana das Flores”.


D. Vilma é uma mulher admirável em sua simplicidade. Desde que mudei para a casa que construí no Parque do Mirante sempre a vejo às voltas com seu trabalho, passando pilhas de roupas, bem na frente da porta da sala, de onde tem uma visão privilegiada do movimento da rua. Aliás, ela e seu filho Wenderson são os anjos da guarda que zelam pela tranquilidade dos moradores deste quarteirão. Sempre tem um sorriso nos lábios e, desde que a conheci, cuida de seus familiares, lidando com graves problemas de saúde e até perdas de pessoas queridas que lhe são próximas.


Confidenciou-me que há 7 anos tornou-se “festeira”, recebendo anualmente a visita de alguma Companhia de Reis. Esta foi a primeira vez que compareci, e fiquei muito grata pelo atencioso convite.
A Folia de Reis representa a legítima manifestação da religiosidade popular, ligada às primeiras manifestações de cunho folclórico em nossa cidade. Há algo de mágico e cativante na devoção aos Santos Reis.


A Companhia “Caravana das Flores” do capitão Jeovair Gomes tem longa tradição, pois foi fundada em 1945 e, portanto, há 73 anos. Orgulhoso de sua Companhia de Reis e da intensa devoção, que atravessou gerações até os dias atuais, contou-me ser pai de 18 filhos frutos de duas felizes uniões, sendo nove com a primeira mulher e, após a viuvez, mais nove com a segunda.


Eurípedes, o mais velho dos filhos, é quem assumiu o posto de capitão na visita ao lar de D. Vilma, empunhando sua viola lindamente ornamentada com fitinhas multicores e entoando com desenvoltura os versos que conduzem a narrativa da visita dos Três Reis do Oriente ao Menino Jesus. Todos os integrantes do grupo ostentavam camisetas com a imagem dos Santos Reis e o poético nome da Companhia escrito logo abaixo, com justo orgulho. O capitão tirava os versos e os músicos repetiam as frases finais, enfatizando a mensagem contida em cada estrofe. A voz aguda, tão característica das folias, era emitida firmemente por um garoto de, no máximo, 13 anos de idade e já empunhando com maestria a sua viola. A cantoria aliada aos sons das violas, sanfona, pandeiros e bumbos, criavam um clima de genuína fé cristã.


A bandeira, conduzida com muito respeito, é incondicionalmente sagrada e segue sempre à frente do grupo. Assim que chegaram à casa de D. Vilma, que os esperava à frente da casa com as portas e janelas abertas, a bandeira lhe foi solenemente entregue. Na chegada, o capitão e demais integrantes entoaram cânticos cujos versos pedem licença à dona da casa para entrar. Junto com eles entraram os familiares, amigos e vizinhos. Enquanto tocavam e cantavam, a anfitriã levou a bandeira a todos os cômodos, abençoando cada ambiente. Veio-me à mente a ideia de um simbólico “batismo” da pequena residência. Mais uma vez senti que a energia que circulava no local era muito intensa e inundava tudo à nossa volta.


Não pude me conter e pedi ao capitão, na hora do lanche carinhosamente preparado, para fazer uma promessa e entregar uma oferta. Após as cerimônias finais, antes da companhia retirar-se, a bandeira foi entregue a mim pela “festeira”, com a imagem voltada em minha direção. Coloquei-me de joelhos e fiz uma breve oração com muita devoção. Na indecisão dos gestos e nas orientações passadas à meia-voz houve mais energia sugestiva do que poderia crer. Nessa atmosfera de religiosidade ingênua e popular, tudo me parecia penetrável e inteligível. Optei pela comunhão com as pessoas e busquei harmonizar-me com suas crenças.

Todos naquele momento nos colocamos no lugar dos três Reis Magos e desejamos verdadeiramente homenagear o Deus-Menino.
A fé é motivadora e, quando somamos nossa energia à de outras pessoas, torna-se indestrutível. Foi um dia muito especial que ficará guardado para sempre em minha memória afetiva.

Olga Maria Frange de Oliveira
Pianista, professora, maestrina, regente do Coral Artístico Uberabense, pesquisadora da História da Música em Uberaba, ex-diretora geral da Fundação Cultural de Uberaba







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