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ENTREVISTA
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ENTREVISTA
26/12/2011

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O menino de Uberaba que sonhava ser maquinista e virou embaixador

Formado pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil em 1959, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Leite Barbosa é um dos muitos exemplos de que os uberabenses também têm qualidades como sagacidade e perspicácia para aproveitar as pequenas oportunidades da vida e dar importantes contribuições aos seus compatriotas. Carlos Alberto nasceu desejando viver como maquinista de trem e acabou servindo 42 anos como diplomata em mais de cinco países.
Em seu currículo estão atuações como cônsul de Terceira Classe, segundo secretário, ministro de Segunda e de Primeira Classe no Gabinete Civil da Presidência da República. Serviu na Embaixada de Buenos Aires e foi embaixador em Madri, em Bogotá, em Paris e em Roma. Foi presidente do Instituto Brasileiro do Café (IBC), além de chefe da Delegação Permanente junto à “Food and Agriculture Organization” (FAO) em Roma. Foi conselheiro especial da Missão Brasil nas Nações Unidas e representante permanente junto à Organização dos Estados Americanos (OEA). Foi condecorado com medalhas no Brasil e no Exterior.
Na entrevista especial deste domingo, o Jornal da Manhã traz a história do embaixador aposentado Carlos Alberto Leite Barbosa, que atualmente se dedica a produção de um livro e à criação de gado nelore de elite.

Jornal da Manhã – Quem é o homem Carlos Alberto Leite Barbosa?
Carlos Alberto Leite Barbosa – É muito difícil falar de si próprio. Também não é fácil a missão de dizer quais são meus defeitos e minhas qualidades, mas, afinal, não me considero portador de nenhum aspecto incomum. Sinto-me o mais comum dos mortais. É complicado se autodefinir, mas sou uma pessoa que procura sempre fazer o bem, cumprir meu dever e espero ter feito tudo isso da melhor maneira possível, dentro da modéstia de meus recursos.
JM – Como foi a infância do senhor? Há fatos marcantes?
CALB – Minha infância foi normal na Uberaba da década de 40. Brincava de bolinha de gude, apanhando manga no quintal do vizinho, mas nada de especial. Uma infância e juventude como outra qualquer. Fui alfabetizado pelo Mário Palmério, pois fiz o primário no Colégio Triângulo. Ele era recém-casado e havia aberto uma escola na rua Manuel Borges, em um casarão onde funcionou o Regina Hotel e hoje está abandonado. Ali foi minha primeira escola, onde aprendi as primeiras letras com o jovem professor, recém-chegado a Uberaba, Mário Palmério, e de quem fui amigo a vida toda.

JM – Como a relação do senhor com seus pais influenciou na formação do homem que é hoje?
CALB – Evidente que a formação do indivíduo parte da casa, do lar e dos exemplos que o pai e a mãe podem oferecer. Isso sob qualquer aspecto social. Lógico que meu pai e minha mãe contribuíram para minha formação. Porém, minha formação não é perfeita, mas eles não são responsáveis por meus defeitos, e sim por minhas eventuais qualidades.

JM – Que aspectos da personalidade de seus pais são mais marcantes?
CALB – Começando pela mãe, Justina Leite Barbosa, ainda é marcante, pois ela está viva, comigo e até hoje muito ativa... Por isso não preciso me lembrar, pois ela está muito presente. Do meu pai, Saturnino Leite Barbosa, é lógico que guardo várias lembranças. Ele era um homem firme, decidido, empreendedor, tendo enfrentado inúmeras dificuldades na vida. E posso dizer que sempre mirei nos exemplos paternos, ou das pessoas mais velhas, para ser como sou. É claro que devo a ele a modelagem de meu caráter, seja ele bom ou ruim, não sei, pois são as pessoas que julgam... Mas minha convivência com ele foi muito estreita, até eu partir para o Rio de Janeiro, momento em que me distanciei fisicamente.

JM – E quando foi que o senhor se mudou para o Rio?
CALB – Fui para o Rio em meados de 1955, tão logo terminei o que corresponde hoje ao fundamental. Tinha 15 anos de idade e lá então fiz o chamado colegial. Fui primeiro para o internato e depois concluí essa etapa no Colégio Andrews, em Botafogo. Naquela época éramos um bom grupo de Uberaba. Havia o Antônio Ronaldo e João Alberto Rodrigues da Cunha, o outro irmão Afonso Arnaldo, o Márcio Abreu Rodrigues da Cunha... Enfim, éramos um grupo de uns dez jovens uberabenses estudando no Colégio São José Marista. Depois eu saí e terminei o científico no outro colégio. Fiquei pensando o que iria fazer e decidi abandonar os estudos, voltando para Uberaba, pois realmente não sabia o que fazer. Depois de um ano em Uberaba, resolvi voltar para o Rio de Janeiro para continuar a estudar. Pensei em ir para o Colégio Naval, para o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), que estava se iniciando naquela época, pensei em ser veterinário, mas ficava dando voltas por aí e acabava não estudando. Até que um dia decidi ir para o Rio mais uma vez, mas para estudar. Resolvi fazer vestibular na Nacional de Direito, antiga Universidade do Brasil e atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passei na prova, que na época não era nada fácil, e no segundo ano da faculdade prestei o concurso para o curso de diplomatas, pois não precisava estar formado em nenhum curso superior. Vocação de berço é algo muito raro. Não foi porque quando era bebê dizia que seria um diplomata... [risos] Porque quase ninguém sabe o que faz um diplomata. Quando um jovem sonha em ser engenheiro, se imagina fazendo pontes e casas, mas em relação aos diplomatas, nunca sabem o que eles fazem.

JM – Mas então o que é que o senhor queria ser quando criança?
CALB – Na verdade, quando era um gurizinho, queria mesmo era ser maquinista de estrada de ferro. [risos] Tinha paixão por locomotivas. Tanto que quando era criança fugia sempre de algumas obrigações para ir ver as máquinas chegando a Uberaba. Sempre gostei de profissões que exigissem deslocamento. Se fosse seguir vocações de berço, a minha profissão seria maquinista, que é muito digna e proveitosa.

JM – O senhor mencionou que é difícil uma criança crescer dizendo que quer ser diplomata, mas ainda hoje poucas pessoas sabem qual é seu papel... Como foi essa descoberta de o que faz um diplomata?
CALB – Estava na faculdade, fazia política estudantil, era do Centro Acadêmico, morava do lado da UNE (União Nacional dos Estudantes) e vivia envolvido com política estudantil. Dentro da faculdade tínhamos movimentos de reformas educacionais de esquerda e fazíamos muita agitação. Era uma época em que os centros acadêmicos tinham uma vida política nacional. Em dado momento vi o edital do concurso para o Instituto Rio Branco e me deu vontade de fazer. Decidi me preparar. Já tinha certa base em francês. Tinha que estudar inglês e outras matérias eu precisava rever, pois fazia um ano e meio que tinha feito vestibular. Juntei-me com quatro ou cinco companheiros que iriam fazer também e estudei até não poder mais. Acabaram praia, brincadeiras, diversão e os sábados e domingos... Não esperava passar, mas fui aprovado na primeira tentativa. Foi quase uma surpresa para mim. Meus pais nem sabiam que eu estava fazendo o concurso. Depois de receber a notícia da aprovação, pensei, agora tenho que ir a Uberaba explicar. Meus pais receberam bem a notícia, mas não com muito entusiasmo... [risos]

JM – Até porque não sabiam bem onde o senhor iria chegar...
CALB – Exatamente. Além disso, eu era o primeiro a sair da trilha familiar que sempre foi formada por fazendeiros. Há uns 300 anos... Meu bisavô, meu avô e meu pai sempre estiveram envolvidos com negócios de fazenda. E fui um dos primeiros a sair do “bom caminho”... [risos]

JM – O senhor abriu caminhos... Mas como foi o curso?
CALB – Fiz dois anos de curso, em oito horas de aula por dia. Ao ser aprovado, o estudante tem que fazer um ano de estágio no Itamarati e, se bem-sucedido, é nomeado, ou melhor, confirmado, automaticamente.

JM – E qual foi o primeiro posto que o senhor assumiu?
CALB – O primeiro posto no qual servi, logo que terminei o curso, foi Nova York. Depois estive um tempo em Los Angeles. Depois de passar mais um tempo em Nova York, fui para Buenos Aires, na Argentina, e vim para o Brasil, onde fiquei três anos no Rio de Janeiro. Após essa temporada por aqui, fui para Madri, na Espanha, onde fiquei quatro anos. Depois voltei e, como embaixador, fiquei em Roma, Paris, Washington e Nova York.

JM – Vivendo tanto tempo fora de casa como diplomata e embaixador, que situações o senhor precisou enfrentar?
CALB – São 42 anos de serviço diplomático e é difícil lembrar fatos que sejam interessantes, pois trata-se de pessoas que já morreram, etc. Tive momentos difíceis, complicados em todos os aspectos, mas nunca fui vítima de nenhum atentado ou sequestro, situações que os diplomatas da minha época estavam muito sujeitos.

JM – Nessa fase de dificuldades, que tipo de situações difíceis o senhor precisou enfrentar?
CALB – Todo tipo de dificuldades, por exemplo, a minha vida diplomática foi pautada por dois fatos que marcaram o momento internacional em que servi: a dívida externa do Brasil e a Guerra Fria. Grosso modo, 60 a 70% da minha carreira se deu durante a Guerra Fria, que acabou com a queda do Muro de Berlim, que foi um marco, vivendo os confrontos e ainda a negociação da dívida externa brasileira. Quando entrei para esta carreira, a dívida já era um problema que só foi se agravando. Não digo que a vida de meus colegas de hoje é mais fácil, mas a posição do Brasil no cenário internacional é muito mais favorável agora. O Brasil deixou de ser um país devedor para ser credor. Então, isso muda muito a nossa imagem lá fora. O Brasil começa a ter a imagem que merece. Sinto não poder usufruir desse bom momento, mas o futuro ninguém sabe.

JM – Quem gosta de filmes de espionagem sempre vê na diplomacia ou no papel do embaixador algo de mágico. Existia um clima de tensão no período em que o senhor atuou durante a Guerra Fria?
CALB – Não. O Brasil não era um país que desempenhava um papel preponderante na Guerra Fria, que acontecia entre os Estados Unidos e seus aliados e do outro lado as nações soviéticas. Mas, evidentemente, os diplomatas brasileiros também sofriam algum tipo de perigo. Para se ter uma ideia, conflitos internos eram uma ameaça permanente, pois no momento de um possível bombardeio não há como dizer: “Ali não, pois é a Embaixada brasileira”. Houve colegas que foram sequestrados em outros países. Mas hoje as pessoas têm uma visão tradicional do diplomata ou do embaixador, de que ele vive de fazer coquetéis, jantares, ir a festas e coisa e tal, mas não é bem assim...

JM – Até para acabarmos com este mito de glamour, qual é o papel do diplomata?
CALB – Primeiro é importante distinguir o diplomata, o funcionário público. Outra coisa é a função do embaixador. Servir na embaixada é um cargo de confiança pessoal do presidente da República. E qualquer cidadão pode ser embaixador, desde que tenha mais de 35 anos e seja brasileiro nato. Não precisa ter curso superior ou seguir qualquer outra exigência... O presidente indica um nome para embaixador ao Senado, que aprova ou não. Então, o presidente nomeia, sendo demissível a qualquer hora, assim como um ministro. O embaixador é um representante pessoal do presidente e a embaixada sob sua chefia executa a política externa brasileira que é apurada nos órgãos centrais do Brasil, em Brasília. Simplificando, somos apenas executores de uma política externa que já está pronta.

JM – Como foi para o senhor conciliar a vida familiar com as responsabilidades das embaixadas onde serviu?
CALB – Não conciliei, porque me casei três vezes e estou caminhando para o quarto casamento. [risos] Mas é muito difícil administrar as duas coisas, porque a carreira diplomática é sua, pois é você que decide com vinte e poucos anos seguir essa carreira. Muitas vezes você se casa e esta não é a escolha da sua mulher ou do marido, pois também há diplomatas mulheres. Aliás, o Itamarati foi um dos primeiros ministérios de Relações Exteriores no mundo a admitir mulheres como diplomatas. No Brasil, já havia embaixadoras em 1950... Mas, enfim, para viver uma carreira como esta, é preciso ter uma estrutura psicológica especial. E essa coisa de ficar mudando de casa é desgastante. Houve um ano em que morei em três países diferentes, não foram cidades ou endereços diferentes, foram países, culturas, línguas e comportamentos diferentes... Então, isso causa certa instabilidade, por isso o número de separações na carreira é bastante elevada, mas não é um assunto fácil, pois exige adaptação. Tive dois filhos que me acompanharam até certa época, até completarem mais ou menos dez anos, mas depois, por conta dos estudos, ficaram com a mãe e a avó no Brasil.

JM – Quando foi que o senhor percebeu que era chegada a hora de mudar os rumos de sua vida?
CALB – Antecipei minha aposentadoria como empregado público. O Supremo Tribunal Federal exige a aposentadoria ao se completar 70 anos, mas eu, com 64, pedi minha aposentadoria, pois queria voltar ao Brasil, relativamente bem, para aproveitar minha família, cuidar de algumas coisas que necessitavam de dedicação, ter outro tipo de vida. Fiquei embaixador por 25 anos, o que não quer dizer que não queira voltar, mas já dei minha contribuição e agora é a vez de outras mentes ocuparem esta função.

JM – O senhor acabou voltando às origens?
CALB – Sim, mas na verdade nunca abandonei. Lembro-me que enquanto servia no exterior vinha passar as férias aqui. Mas nesse sentido acabei, sim, voltando às origens, para cuidar da fazenda que meu pai me deixou e que procuro manter com certo sacrifício e trabalho. Hoje, crio gado nelore, plantei seringueiras, mas há alguns anos me dedico à criação de gado de elite. E também acabo aproveitando essa experiência para escrever. Aliás, espero que toda essa minha experiência sirva para alguma coisa. Pedro Naves dizia que experiência é um carro com os holofotes voltados para trás, porque pela frente não se enxerga nada... [risos]

JM – E por falar em experiência, como o senhor avalia a política externa praticada pela presidente Dilma Rousseff?
CALB – Esse esforço de promover, desenvolver e divulgar o Brasil é um trabalho de um governo apenas. Uns acertaram mais, outros menos, mas nenhum presidente erra por propósito. Levando em consideração os últimos, todos contribuíram de alguma forma. O Itamar Franco com o Plano Real, o presidente Lula com toda a sua política social em prol das classes menos favorecidas e, agora, a Dilma, que prossegue, de maneira geral, com a política anterior. Temos ainda o governo Sarney, que entrou para a história por de fato promover a transição pacífica de um regime autoritário à plena democracia. Vale lembrar que o Brasil foi um dos poucos países que conseguiram fazer essa transição pacífica, pois não houve mortes ou guerra civil. Então, cada um tem seu mérito, mas tudo que temos hoje é resultado de um esforço comum a todos os governos.

JM – É verdade que hoje em dia o senhor está escrevendo um livro?
CALB – Já escrevi um sobre a política externa do ex-presidente Jânio Quadros. E vi que agora anda voltando a moda de usar a vassoura como bandeira eleitoreira política. Fiz a revisão desse livro e devo lançar a segunda edição melhorada em janeiro de 2012, dependendo da editora... E estou tentando escrever um segundo livro, mas é uma história romanceada. É baseada em fatos que aconteceram, mas romanceados...

JM – E qual seria a sinopse?
CALB – Se eu te contar, vem alguém e copia a ideia. [risos] Mas na verdade não posso fazer um resumo do livro, porque não sei onde ele vai chegar. Estou nas primeiras 80 páginas. Ele está nascendo, mas pretendo enquadrar o livro em uma história de aventura no começo do século passado. É a epopeia de um mineiro que vai para a Índia comprar zebu...
 







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